Meus olhos toparam dispretensiosamente com a etiqueta "hecho en China" da cortina do chuveiro enquanto eu tomava banho hoje no Holyday Inn de Atenas.
Ou seria de Lisboa?
Não, o Holyday Inn de Lisboa foi onde a arrumadeira, romena como minha vó, me ensinou a fazer a cama outro dia. Que dia? já nem lembro. Mas lembro que a cortina "hecha en China", apesar de escrita em espanhol, era mesmo do Holyday Inn - uma cadeia de hoteis dos Estados Unidos - de Atenas, na Grécia, onde estava para acompanhar a visita da presidente brasileira, que foi fazer um pit stop na sua viagem para a China, que é de onde vem a cortina do banheiro do hotel da rede americana no qual eu, brasileira como a presidente (que aliás veio do leste europeu, como meus avós), estava hospedada, em Atenas, na Grécia.
Eu e um árabe, que passava os dias perambulando pelo hotel de turbante. Um bem parecido ao que usava o motorista do ônibus que me leva à sede da ONU em Genebra.
Não, o motorista era do double decker de Londres, onde de repente estou, ao lado do motorista de turbante, da menina com uma das categorias do véu islâmico, das inglesas que desenharam a bandeira de seu país no rosto, marcando na cara sua origem, assim como a menina do véu islâmico do Paquistão.
Ou seria da India?
Pisco o olho e de repente estou no avião de volta a Madri. Ou seria a Londres de novo? Já não lembro, mas sei que sentei ao lado de um menino da China, como a cortina do hotel de Lisboa e para onde a presidente, brasileira como eu, iria após um pit stop na Grécia. Ou seria Lisboa?
Madri. Agora estou jantando em Madri com amigos brasileiros que me contam a história de suas famílias. Um era polonês, fugiu do Holocausto para a Inglaterra e casou-se com uma italiana, com quem para o Brasil, onde nasceu minha amiga que, num movimento oposto, ganhou passaporte da Italia e foi morar em Madri. Outro, depois de se esconder dos nazistas em um porão em Budapeste, fugiu para o Rio de Janeiro, onde combinou de encontrar com a mulher, que, anos depois, baixou ali com os filhos e conseguiu reencontrar o marido por um anúncio no jornal local.
Jornal local. Levei um de cada lugar. Da Grécia (ou seria Londres?), de Londres (ou seria Lisboa ?). De Lisboa (ou seria Grécia?). Disso não lembro, só de que todos eram locais, embora falassem do mundo, embora me mostrassem, os jornais, a cortina chinesa do banheiro grego, a arrumadeira romena, a presidente brasileira, o hotel da rede americana, o avô polonês da minha amiga paulista, o avião irlandês com o passageiro da China, e do Brasil, e de sabe-se lá de onde mais, o quão falido é o conceito de local, o quão estáticas são nossas visões a partir da nossa origem, e não de nosso destino - o mundo -, o quão falsas são as fronteiras nacionais, e o quão verdadeiro é que "somos todos filhos de Deus.
Só não falamos a mesma língua".
domingo, 10 de abril de 2011
terça-feira, 15 de março de 2011
A cidade que se quer
Há dez dias deixei uma temporada de mais de três meses no Rio, a cidade onde eu nasci, cresci e tenho penetrada nas minhas entranhas, e voltei a Madri, a cidade que escolhi para viver há dois anos e que, sorrateira, me faz parte dela, e ela parte de mim a cada nova estadia.
Sempre que penso nisso me vem à cabeça a cena do filme "Avatar" em que o protagonista confessa ao seu videoblog já nem saber qual dos seus dois lados - o humano e o avatar - é o real.
O Rio é minha cidade de origem. Madri é minha cidade de destino - pelo menos por agora -, um destino que escolhi porque...bem, não há um porquê. Há vários.
Um deles é a amizade que Madri - embora nem sempre os madrilenhos! - faz de graça com quem for, da onde for, da cor, cara, opção sexual e dinheiro que tiver. É também a liberdade de caminhar pelas ruas a qualquer hora da madrugada, permitida pela relativa segurança de uma cidade europeia combinada ao movimento noturno de uma cidade que também tem sangue latino. Queria poder descrever a sensação que tive no dia que voltei a Madri ao cruzar a Plaza Mayor às 4h da madrugada, rodeada pelo conjunto de prédios seculares, pintados com a alma de tantas histórias, reconstruídas diariamente.
Outro motivo é a personalidade de Madri, que acho parecida com a minha. É, na minha visão, uma cidade cuja força, beleza e intensidade não se revelam imediatamente e nem tampouco para qualquer um, como Paris, Praga e, claro, o Rio, que esfregam suas qualidades na cara de quem acaba de chegar e que, óbvia e naturalmente, vão atrair a maioria dos viajantes.
Madri não. Madri exige que se enxergue sua beleza perdendo-se por ruelas e topando com prédios, esculturas e paisagens escondidas de tirar o fôlego. Madri exige que se sinta sua força numa caminhada notívaga. Madri exige que se descubra a intensidade com o leve passar dos dias.
Ao mesmo tempo, porém, é uma cidade comportada - para o ponto de vista de uma carioca, frise-se. Cada parte do espaço público cumpre precisamente sua função -, nem mais nem menos que ela -, do transporte aos parques, dos cafés peculiares aos grandes restaurantes, dos (poucos) shoppings aos mercadinhos a céu aberto. Nada escapa de ser exatamente o que se é.
Não nego que esta seja uma visão um tanto poética do que é Madri. É que, ao mesmo tempo que já voltei à rotina de trabalho, mudança e problemas burocráticos, ainda enxergo quase só poesia na cidade, no violino que tocam pelos corredores do metrô, nas árvores indecisas entre ainda ser inverno ou já primavera, nos idiomas que se escuta diariamente - hoje, só no trecho entre a academia e minha casa, teve árabe, francês, chinês e um idioma africano -, no ponto do ônibus noturno que serenamente me leva à casa, no frio que me faz sentir tão viva, nos passos que dou e através dos quais sinto que a cidade já é um pouco minha, e eu um pouco dela.
Porque cada um É da cidade que QUER.
Eu sou do Rio.
Eu quero Madri.
(p.s.: a foto acima é de um cartãozinho que ganhei enquanto caminhava pensando sobre este post)
Sempre que penso nisso me vem à cabeça a cena do filme "Avatar" em que o protagonista confessa ao seu videoblog já nem saber qual dos seus dois lados - o humano e o avatar - é o real.
O Rio é minha cidade de origem. Madri é minha cidade de destino - pelo menos por agora -, um destino que escolhi porque...bem, não há um porquê. Há vários.
Um deles é a amizade que Madri - embora nem sempre os madrilenhos! - faz de graça com quem for, da onde for, da cor, cara, opção sexual e dinheiro que tiver. É também a liberdade de caminhar pelas ruas a qualquer hora da madrugada, permitida pela relativa segurança de uma cidade europeia combinada ao movimento noturno de uma cidade que também tem sangue latino. Queria poder descrever a sensação que tive no dia que voltei a Madri ao cruzar a Plaza Mayor às 4h da madrugada, rodeada pelo conjunto de prédios seculares, pintados com a alma de tantas histórias, reconstruídas diariamente.
Outro motivo é a personalidade de Madri, que acho parecida com a minha. É, na minha visão, uma cidade cuja força, beleza e intensidade não se revelam imediatamente e nem tampouco para qualquer um, como Paris, Praga e, claro, o Rio, que esfregam suas qualidades na cara de quem acaba de chegar e que, óbvia e naturalmente, vão atrair a maioria dos viajantes.
Madri não. Madri exige que se enxergue sua beleza perdendo-se por ruelas e topando com prédios, esculturas e paisagens escondidas de tirar o fôlego. Madri exige que se sinta sua força numa caminhada notívaga. Madri exige que se descubra a intensidade com o leve passar dos dias.
Ao mesmo tempo, porém, é uma cidade comportada - para o ponto de vista de uma carioca, frise-se. Cada parte do espaço público cumpre precisamente sua função -, nem mais nem menos que ela -, do transporte aos parques, dos cafés peculiares aos grandes restaurantes, dos (poucos) shoppings aos mercadinhos a céu aberto. Nada escapa de ser exatamente o que se é.
Não nego que esta seja uma visão um tanto poética do que é Madri. É que, ao mesmo tempo que já voltei à rotina de trabalho, mudança e problemas burocráticos, ainda enxergo quase só poesia na cidade, no violino que tocam pelos corredores do metrô, nas árvores indecisas entre ainda ser inverno ou já primavera, nos idiomas que se escuta diariamente - hoje, só no trecho entre a academia e minha casa, teve árabe, francês, chinês e um idioma africano -, no ponto do ônibus noturno que serenamente me leva à casa, no frio que me faz sentir tão viva, nos passos que dou e através dos quais sinto que a cidade já é um pouco minha, e eu um pouco dela.
Porque cada um É da cidade que QUER.
Eu sou do Rio.
Eu quero Madri.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Aurora
A cidade já clareou mas ainda descansa silenciosa, às 5h40 desta segunda-feira. É um silêncio atípico, de um Rio de Janeiro que é caos por essência. O fim do horário de verão permite essa combinação rara nesta época do ano por aqui: já é dia e ainda é silêncio. Ainda dormem o ruído da obra, das máquinas de lavar roupa, dos vendedores da praia, do samba em qualquer esquina neste pré-carnaval.
As calçadas ainda não fervem, embora o sol se reflita nas árvores do Jardim Botânico. Daqui, imagino a efervescência que certamente já despertou quase todas as favelas da cidade. Mas aqui ainda é silêncio.
É um silêncio falso, eu sei. Melhor: uma pausa de algumas horas do fervilhante cotidiano carioca. Mas é um silêncio que está ali, que também existe, que me faz até sentir saudades do inverno europeu, dos dias frios em cafés onde quase não se fala, só se observa, se aprecia, se reflete, se cala.
Aos poucos, o caos vai retomando seu espaço. O menininho aqui do lado sai pra escola brigando com a mãe, a ignição de um carro é ligada, seguida de outra. O jornal aparece na porta, a Dida chega e já abre a tábua de passar roupas. A minha irmã sai para correr. Inauguram-se os discursos no Facebook dos meus amigos brasileiros (porque os espanhóis, quatro horas à frente, já estão na ativa), além dos cantos dos pássaros e da cigarra nas árvores.
Volto para a sala e o dia já ferve, embora não seja nem 7h30. Desisto de dormir e vou tomar café, porque, mesmo que eu queira, o caos já não deixa. A obra do lado já não deixa. A aurora já devolveu ao Rio sua condição sine qua non, e às 7h30 a pulsação da cidade ferve dentro de mim.
As calçadas ainda não fervem, embora o sol se reflita nas árvores do Jardim Botânico. Daqui, imagino a efervescência que certamente já despertou quase todas as favelas da cidade. Mas aqui ainda é silêncio.
É um silêncio falso, eu sei. Melhor: uma pausa de algumas horas do fervilhante cotidiano carioca. Mas é um silêncio que está ali, que também existe, que me faz até sentir saudades do inverno europeu, dos dias frios em cafés onde quase não se fala, só se observa, se aprecia, se reflete, se cala.
Aos poucos, o caos vai retomando seu espaço. O menininho aqui do lado sai pra escola brigando com a mãe, a ignição de um carro é ligada, seguida de outra. O jornal aparece na porta, a Dida chega e já abre a tábua de passar roupas. A minha irmã sai para correr. Inauguram-se os discursos no Facebook dos meus amigos brasileiros (porque os espanhóis, quatro horas à frente, já estão na ativa), além dos cantos dos pássaros e da cigarra nas árvores.
Volto para a sala e o dia já ferve, embora não seja nem 7h30. Desisto de dormir e vou tomar café, porque, mesmo que eu queira, o caos já não deixa. A obra do lado já não deixa. A aurora já devolveu ao Rio sua condição sine qua non, e às 7h30 a pulsação da cidade ferve dentro de mim.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Parto?
- Boa tarde, queria marcar um parto.
(silêncio)
- Dia 20, às 8h, por favor.
(silêncio)
- Hmm ok. Às 10h então.
(silêncio)
- Sim, doutora XXXXXX.
(silêncio)
- Feto único.
(silêncio)
- Paciente XXXXXX. Nascida em 10/07/1978. Primeira vez.
(silêncio)
- Plano Unimed Nacional Platinum Plus.
- Obrigada.
(silêncio)
(silêncio)
- Dia 20, às 8h, por favor.
(silêncio)
- Hmm ok. Às 10h então.
(silêncio)
- Sim, doutora XXXXXX.
(silêncio)
- Feto único.
(silêncio)
- Paciente XXXXXX. Nascida em 10/07/1978. Primeira vez.
(silêncio)
- Plano Unimed Nacional Platinum Plus.
- Obrigada.
(silêncio)
Estação
Uma pipa pendurada no alto da árvore. Ladeira acima. Uma estação, Cantagalo. Outra estação, o verão.
E a vontade de você.
Lá em cima, as centenas de casinhas iluminadas. O elevador onipotente. O mar. O infinito. O fôlego perdido. (mágica).
E a vontade de você.
Lá em cima, daqui da rede, a vida ao vivo. A efervescência silenciosa da noite na favela. Os meninos jogando bola, embaixo da moça que se troca com a porta aberta, sob a família que vê TV, em cuja lage os rapazes que consertam a antena (ou fazem um gato talvez). Todos abaixo do céu, embora bem perto dele.
E a vontade de você.
Champanhe, música, êxtase, debate. Calor. Uma brisa provocante. Um convite para um banho noturno. Agora ladeira abaixo.
A pipa ainda pendurada no alto da árvore. Silêncio. A lua, que "boia no céu imensa e amarela", incrivelmente amarela, incrivelmente baixa. (mágica).
O calçadão. O mar gelado. E o nosso encontro, enfim. Misturado de mar, misturado de areia. Na alta madrugada da quarta-feira carioca. Sob a benção de uma estação, o Cantagalo. E de outra estação, o verão.
E a vontade de você.
Lá em cima, as centenas de casinhas iluminadas. O elevador onipotente. O mar. O infinito. O fôlego perdido. (mágica).
E a vontade de você.
Lá em cima, daqui da rede, a vida ao vivo. A efervescência silenciosa da noite na favela. Os meninos jogando bola, embaixo da moça que se troca com a porta aberta, sob a família que vê TV, em cuja lage os rapazes que consertam a antena (ou fazem um gato talvez). Todos abaixo do céu, embora bem perto dele.
E a vontade de você.
Champanhe, música, êxtase, debate. Calor. Uma brisa provocante. Um convite para um banho noturno. Agora ladeira abaixo.
A pipa ainda pendurada no alto da árvore. Silêncio. A lua, que "boia no céu imensa e amarela", incrivelmente amarela, incrivelmente baixa. (mágica).
O calçadão. O mar gelado. E o nosso encontro, enfim. Misturado de mar, misturado de areia. Na alta madrugada da quarta-feira carioca. Sob a benção de uma estação, o Cantagalo. E de outra estação, o verão.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Na beira
Me dei conta ali na beirinha, ao ver o menino que feito peixe sumia no feixe entre a onda e o fundo do mar, os amigos que conversavam tranquilamente no meio da arrebentação, a menina que se protegia dos caixotes atrás do namorado.
Me dei conta com o tronco fincado na areia, esperando um intervalo entre uma onda e outra para mergulhar - quer dizer, para abaixar rapidamente a cabeça na água:
caramba, virei uma pessoa que fica empacada na beira do mar.
Eu, que aos dois anos fui arremessada do barco no mar revolto de Cabo Frio pelo meu pai, um engenheiro e mergulhador - influência do meu avô, um fotógrafo e pescador -, virei uma pessoa que fica empacada na beira do mar.
Tudo bem que minha mãe me esperava de braços abertos, mas aquele mergulho forçado selou minha amizade com o mar, que carreguei com zelo até... até virar uma pessoa que fica empacada na beira.
Dali pra frente, não precisei mais ser tacada no mar. Por minha conta em risco, me jogava sozinha cada vez que o barco se aproximava de alguma praia, bem longe de atracar. E de lá só saía para roubar uns camarões fritos que o "dono" da ilha servia na areia ou para esfregar cubinhos de doce de leite no lábio, o melhor alívio da ardência do sal que já existiu. Tirando esses intervalos, eram horas e horas observando desde a superfície o meu pai mergulhar e ouvindo o ritmo da minha respiração no tubo.
No Rio, encarava tranquilamente as ondas, ultrapassando uma a uma, até chegar ao ponto em que o mar me abria os braços. E aí a nossa amizade era plena.
Na volta, deslizava com a prança até a beirinha, esta mesmíssima onde hoje me encontro empacada.
Daqui da beirinha, começo a lembrar da adrenalina de furar uma onda, da taquicardia de ser engolida por ela quando não dá certo, do alívio furtivo de voltar à superfície, agora com ainda mais vida, valorizando cada mínima porção de oxigênio. E da plenitude do encontro com o mar lá depois das ondas.
E para chegar lá, penso, deve ser mesmo preciso sair daqui da beirinha e enfrentar o sacolejo das ondas. Se propor ao risco.
Pode até não dar certo, mas concluo que ainda assim é melhor que fincar a perna na beira esperando (horas, dias, anos,...) um mar sem adversidades para poder boiar.
Então tá, começo a tentar enfrentar as ondas. Vou. Não vou. Tento de novo. Volto. E assim sucessivamente, até meter a cabeça numa onda, que delícia, mas logo voltar correndo ao ponto de partida.
Tudo bem, vou sem pressa - o mar também se revela paciente. Lembro da técnica da exposição ao risco que minha amiga psicóloga me ensinou. Então volto a me expor.
Mais dois mergulhos. Três. Quatro. Dez. E no décimo a energia da água me toma por completo. Olho para os lados - de um o Arpoador; de outro, as pedras do Leblon. Sobre mim, o sol pungente. Não resisto.
Choro por ele, pelo mar, pelo que tinha visto esta semana, por estar perto dos meus amigos e família. E nem ligo para o clichê, até porque agora faz ainda mais sentido o meu amigo que publicou no facebook estar muito feliz por "apenas" sentar com amigos num bar.
Porque selei a volta da minha amizade com o mar, embora não tenha chegado ao fundo, embora saiba que ela ainda terá muitos altos e baixos. Agradeço, acaricio a beira com os pés. A beira à qual hoje não fiquei empacada.
Me dei conta com o tronco fincado na areia, esperando um intervalo entre uma onda e outra para mergulhar - quer dizer, para abaixar rapidamente a cabeça na água:
caramba, virei uma pessoa que fica empacada na beira do mar.
Eu, que aos dois anos fui arremessada do barco no mar revolto de Cabo Frio pelo meu pai, um engenheiro e mergulhador - influência do meu avô, um fotógrafo e pescador -, virei uma pessoa que fica empacada na beira do mar.
Tudo bem que minha mãe me esperava de braços abertos, mas aquele mergulho forçado selou minha amizade com o mar, que carreguei com zelo até... até virar uma pessoa que fica empacada na beira.
Dali pra frente, não precisei mais ser tacada no mar. Por minha conta em risco, me jogava sozinha cada vez que o barco se aproximava de alguma praia, bem longe de atracar. E de lá só saía para roubar uns camarões fritos que o "dono" da ilha servia na areia ou para esfregar cubinhos de doce de leite no lábio, o melhor alívio da ardência do sal que já existiu. Tirando esses intervalos, eram horas e horas observando desde a superfície o meu pai mergulhar e ouvindo o ritmo da minha respiração no tubo.
No Rio, encarava tranquilamente as ondas, ultrapassando uma a uma, até chegar ao ponto em que o mar me abria os braços. E aí a nossa amizade era plena.
Na volta, deslizava com a prança até a beirinha, esta mesmíssima onde hoje me encontro empacada.
Daqui da beirinha, começo a lembrar da adrenalina de furar uma onda, da taquicardia de ser engolida por ela quando não dá certo, do alívio furtivo de voltar à superfície, agora com ainda mais vida, valorizando cada mínima porção de oxigênio. E da plenitude do encontro com o mar lá depois das ondas.
E para chegar lá, penso, deve ser mesmo preciso sair daqui da beirinha e enfrentar o sacolejo das ondas. Se propor ao risco.
Pode até não dar certo, mas concluo que ainda assim é melhor que fincar a perna na beira esperando (horas, dias, anos,...) um mar sem adversidades para poder boiar.
Então tá, começo a tentar enfrentar as ondas. Vou. Não vou. Tento de novo. Volto. E assim sucessivamente, até meter a cabeça numa onda, que delícia, mas logo voltar correndo ao ponto de partida.
Tudo bem, vou sem pressa - o mar também se revela paciente. Lembro da técnica da exposição ao risco que minha amiga psicóloga me ensinou. Então volto a me expor.
Mais dois mergulhos. Três. Quatro. Dez. E no décimo a energia da água me toma por completo. Olho para os lados - de um o Arpoador; de outro, as pedras do Leblon. Sobre mim, o sol pungente. Não resisto.
Choro por ele, pelo mar, pelo que tinha visto esta semana, por estar perto dos meus amigos e família. E nem ligo para o clichê, até porque agora faz ainda mais sentido o meu amigo que publicou no facebook estar muito feliz por "apenas" sentar com amigos num bar.
Porque selei a volta da minha amizade com o mar, embora não tenha chegado ao fundo, embora saiba que ela ainda terá muitos altos e baixos. Agradeço, acaricio a beira com os pés. A beira à qual hoje não fiquei empacada.
domingo, 14 de novembro de 2010
Rio-Madrid-Rio-Madrid-Rio...
Há duas semanas, aterrissei no Rio depois de exato um ano desde a última vez que estive por aqui. Desembarquei 16 de novembro, o mesmo dia em que, no ano passado, parti novamente pra Espanha rumo a uma segunda edição da minha estadia por lá.
Depois de um inverno que durou quase seis meses, de muito trabalho e muito estudo mas também de muitas viagens, muitas visitas e muitos novos amigos em Madri, vim fazer um pit stop estilo Rubinho (beeem demorado) na minha terra.
Uma das (únicas) coisas legais de ficar um ano fora da cidade que se viveu toda a vida é começar a notar como ela está em constante transformação. Desta vez, reparei mudanças que vão desde "novas" palavras como UPP e "DR" (Unidade de Policiamento Pacificadora e Discussão de Relação, para os analfabetos do dicionário carioca contemporâneo) às regras atuais que as meninas da zona sul temos que seguir, como pintar unhas de azul-piscina e rosa, fazer luzes californianas e achar barato um vestido de R$ 200.
Mas acho que o que mais dá prazer nesta minha fase atual de revezamento entre Rio e Madri é aproveitar tudo em dobro nas duas cidades. Não consigo até agora - nem acho que um dia conseguirei - descrever a ansiedade que me fez quase explodir quando literalmente corria pelos corredores do aeroporto do Rio em direção ao portão onde me recepcionavam meus pais (que, by the way, parecem que ficaram um ano mais novos!), minha vó e minha irmã. E menos ainda a plenitude de abraçá-los. Nem a alegria de chegar em casa e encontrar minhas amigas me esperando para um lanche com requeijão e mate. Nem a emoção de encontrar cada amigo e a família aos poucos, desde uma mega-reunião na praia do Leblon a esbarrões casuais na padaria. Nem o prazer de dormir na minha cama como uma princesa, de sentir o ar do Jardim Botânico entrar na minha janela a cada manhã, de nadar e me deixar absorver pelas águas cristalinas do Arpoador e até do calor sufocante que senti nesta tarde quando voltava de ônibus do Centro.
Da mesma maneira que me faltam palavras para registrar a emoção que senti no dia em que desci do metrô em Madri no fim do ano passado, quando me lancei numa nova jornada nessa cidade, que agora já conhecia, da qual já era parte de alguma forma.
Claro que há sempre dúvidas, incertezas e outras coisas chatas, mas como escrevi no ano passado, sigo com a sensação maravilhosa dar passos sobre um caminho que, embora não tenha um destino bem delimitado, é feito por mim, de perceber que, realmente, "o que a vida quer da gente é coragem". O resto vem no pacote.
Depois de um inverno que durou quase seis meses, de muito trabalho e muito estudo mas também de muitas viagens, muitas visitas e muitos novos amigos em Madri, vim fazer um pit stop estilo Rubinho (beeem demorado) na minha terra.
Uma das (únicas) coisas legais de ficar um ano fora da cidade que se viveu toda a vida é começar a notar como ela está em constante transformação. Desta vez, reparei mudanças que vão desde "novas" palavras como UPP e "DR" (Unidade de Policiamento Pacificadora e Discussão de Relação, para os analfabetos do dicionário carioca contemporâneo) às regras atuais que as meninas da zona sul temos que seguir, como pintar unhas de azul-piscina e rosa, fazer luzes californianas e achar barato um vestido de R$ 200.
Mas acho que o que mais dá prazer nesta minha fase atual de revezamento entre Rio e Madri é aproveitar tudo em dobro nas duas cidades. Não consigo até agora - nem acho que um dia conseguirei - descrever a ansiedade que me fez quase explodir quando literalmente corria pelos corredores do aeroporto do Rio em direção ao portão onde me recepcionavam meus pais (que, by the way, parecem que ficaram um ano mais novos!), minha vó e minha irmã. E menos ainda a plenitude de abraçá-los. Nem a alegria de chegar em casa e encontrar minhas amigas me esperando para um lanche com requeijão e mate. Nem a emoção de encontrar cada amigo e a família aos poucos, desde uma mega-reunião na praia do Leblon a esbarrões casuais na padaria. Nem o prazer de dormir na minha cama como uma princesa, de sentir o ar do Jardim Botânico entrar na minha janela a cada manhã, de nadar e me deixar absorver pelas águas cristalinas do Arpoador e até do calor sufocante que senti nesta tarde quando voltava de ônibus do Centro.
Da mesma maneira que me faltam palavras para registrar a emoção que senti no dia em que desci do metrô em Madri no fim do ano passado, quando me lancei numa nova jornada nessa cidade, que agora já conhecia, da qual já era parte de alguma forma.
Claro que há sempre dúvidas, incertezas e outras coisas chatas, mas como escrevi no ano passado, sigo com a sensação maravilhosa dar passos sobre um caminho que, embora não tenha um destino bem delimitado, é feito por mim, de perceber que, realmente, "o que a vida quer da gente é coragem". O resto vem no pacote.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Mistura

Outro dia, conversava com uma amiga polaca sobre seu noivo peruano, ao lado de uma paraguaia que casou com um espanhol, uma alemã que cresceu no Paraguai e de uma equatoriana cujo pai tem nacionalidade espanhola, quando percebi que eu, que me orgulho de vir do país da mistura racial, nunca tinha visto tanta gente diferente em um só lugar antes de vir à Espanha.
Ok, não é uma comparação muito legítima, a da Espanha com o Brasil, já que nós temos séculos de experiência no cruzamento de portugueses, índios, negros e quem mais se achegar.
Na Espanha, por outro lado, a mestiçagem é muito nova, porque aqui, ao contrário de muitos países europeus, a imigração é recente, coisa dos anos 90 pra cá, e, por isso, essa mistureba de gente também.
Talvez ainda não tenha alcançado sequer a segunda geração. Mas, pelo que se vê nas ruas, já é uma das grandes características da cidade.
E eu adoro sair na rua e ver rosto de tudo quanto é tipo, dos africanos com a pele brilhante de tão negra à transparência dos europeus do norte que passeiam por aqui, dos chineses que se apoderaram do pequeno comércio da cidade aos romenos que chegaram em massa depois de entrar na União Europeia, dos marroquinos que vendem DVDs piratas aos músicos latinos que poetizam a rotina com shows improvisados no metrô.
É no metrô, aliás, onde melhor se pode atestar essa mistura. Sempre que entro no vagão trato de olhar para os lados e não dá outra: é chinês sentado junto de peruano, do lado da poloca, de frente pro espanhol, que tenta entender o inglês da conversa das estudantes americanas.
E, claro, há sempre um grupinho de brasileiros fofocando, enquanto eu trato de ouvir tudo, dissimulando com a minha cara de não brasileira, fruto também de uma boa mistura!
p.s.: a foto que ilustra este post foi tirada no parque do Retiro, aqui em Madri.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Mudança(s), 2
Nesta madrugada, fui acordada por uma luz forte, como um holofote. Abri os olhos e lá estava ela, a lua de Madri, que me fitava pela janela com a mesma força do dia em que encontrei meu primeiro apartamento aqui, no ano passado.
Mas, peraí, eu disse janela?
Sim. O que quer dizer que já não moro mais na calle del Limón, 1, onde passei dez meses num quarto sem janela.
Daí meu encanto em, no meio da noite, ser acordada pela lua e, no início da manhã, pelos raios de sol que agraciavam meu corpo, já desacostumado em ver a luz do dia pela manhã. "Na casa que não entra o sol, entrará o médico", diz um ditado popular turco, segundo meu amigo da Turquia que abriu seu apartamento aqui em Madri para me receber.
Ele tinha um quarto sobrando, que, somado ao fim do meu contrato no apartamento - que não quis renovar -, resultou na minha mudança (na qual pude atestar, de novo, minha capacidade de juntar tralhas) pra cá.
Com "cá", me refiro à região de Cuzco, um bairro residencial mais para o norte de Madrid, longe do centro, onde já tinha me acostumado a morar. Mas assim será uma oportunidade para conhecer outra cara da cidade, mais nova, menos tradicional.
Ou seja, foi uma mudança de ares também, embora não a única: mudei ainda de rotina, já que, um dia antes de vir para cá, apresentei o trabalho do doutorado que vinha fazendo desde o fim das minhas aulas, em junho (e que, by the way, fui aprovada!), depois de disfrutar de uma deliciosa semana de muitos filmes e pintxos no festival de cinema de San Sebastián.
Passada essa viagem, a defesa do trabalho na banca e um agradável fim de semana com as amigas, enfrento agora uma rotina de trabalho, que, como faço de casa, posso revezar com uma incursão pelos canais de tv a cabo que agora disfruto (um mundo a parte para quem tem que aguentar a sofrível televisão aberta espanhola).
Por isso, ainda não deu tempo de explorar a região, embora dê para espiá-la da enoorme janela da sala, uma pequena grande mudança.
Mas, peraí, eu disse janela?
Sim. O que quer dizer que já não moro mais na calle del Limón, 1, onde passei dez meses num quarto sem janela.
Daí meu encanto em, no meio da noite, ser acordada pela lua e, no início da manhã, pelos raios de sol que agraciavam meu corpo, já desacostumado em ver a luz do dia pela manhã. "Na casa que não entra o sol, entrará o médico", diz um ditado popular turco, segundo meu amigo da Turquia que abriu seu apartamento aqui em Madri para me receber.
Ele tinha um quarto sobrando, que, somado ao fim do meu contrato no apartamento - que não quis renovar -, resultou na minha mudança (na qual pude atestar, de novo, minha capacidade de juntar tralhas) pra cá.
Com "cá", me refiro à região de Cuzco, um bairro residencial mais para o norte de Madrid, longe do centro, onde já tinha me acostumado a morar. Mas assim será uma oportunidade para conhecer outra cara da cidade, mais nova, menos tradicional.
Ou seja, foi uma mudança de ares também, embora não a única: mudei ainda de rotina, já que, um dia antes de vir para cá, apresentei o trabalho do doutorado que vinha fazendo desde o fim das minhas aulas, em junho (e que, by the way, fui aprovada!), depois de disfrutar de uma deliciosa semana de muitos filmes e pintxos no festival de cinema de San Sebastián.
Passada essa viagem, a defesa do trabalho na banca e um agradável fim de semana com as amigas, enfrento agora uma rotina de trabalho, que, como faço de casa, posso revezar com uma incursão pelos canais de tv a cabo que agora disfruto (um mundo a parte para quem tem que aguentar a sofrível televisão aberta espanhola).
Por isso, ainda não deu tempo de explorar a região, embora dê para espiá-la da enoorme janela da sala, uma pequena grande mudança.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
As férias 2
Hoje uma folha de outono caiu despretensiosamente sobre a sacada da minha janela, num sutil presságio do fim do verão, anunciado também pela queda gradual das temperaturas.O que me lembrou que ainda faltava por relatar aqui meu verão de 2010.
Desta vez não passei pelas loucuras do ano passado , como morar em um barco, ir numa praia louca, se demitir de um trabalho semi-escravo, perder o voo ou mudar de destino de um dia pro outro. Mas mesmo assim teve muita aventura e ótimas lembranças: pela primeira vez na vida, vi uma estrela cadente e plantações de girassóis, dois arco-íris, revi pessoas queridas que não via há dez anos e conheci outras tão maravilhosas quanto, passeei duas vezes por Paris, dancei salsa em Berlim e me apaixonei (por uma cidade!).
As férias começaram oficialmente no sul de Portugal para onde fui na última semana de julho, depois de quase todo o mês de bastante trabalho no restaurante, pra rádio e pro jornal e nenhum estudo.
Gente chorando, gente gritando, gente brigando, gente correndo, gente deitada no chão, gente na fila. Muita gente. Esse foi o cenário com o qual me deparei na chegada ao aeroporto de Madri, que cospe gente pra fora durante os meses de julho e agosto, tanto de europeus desesperados pelas praias espanholas quanto de espanhóis desesperados por sair da cidade.
Depois de assistir um pouco daquele circo e sofrer uma horinha na dura cadeira da Ryanair, aterrissei em Faro, no sul de Portugal, onde encontrei minha irmã, minha prima Carol, que finalizava um intercâmbio no Porto, e a portuguesa Rita, que nos acolheu na sua deliciosa casa de praia no Algarve, a região sul de Portugal que todos deveriam conhecer um dia.
Tomei um banho literal e figurativo de mar, este que já não provava há uns bons 10 meses, além de passear de barco, mergulhar, comer maravilhosamente bem - como sempre se faz em Portugal, aliás - e me balançar muito na rede da varanda da Rita, de onde vi, pela primeira vez na vida, uma estrela cadente.
Cinco dias depois e voltei à realidade, que no meu caso era terminar meu trabalho de qualificação do doutorado, que tinha que ter começado em junho - à tempo de embarcar numa viagem para Berlim no fim de agosto. Ledo engano...
Como no ano passado, o acaso me conquistou também neste verão, e me levou a Paris duas vezes no mesmo mês (que chato!). Na primeira delas, fui reencontrar a família que me recebeu durante meu intercâmbio pros Estados Unidos há dez anos, e a quem eu não via desde então. Depois de ser ótimamente bem recebida por um arco-íris e pela minha amiga franco-portuguesa Babeth no seu apê com a varanda de cara para a Sacre Couer, de onde saboreei os indecentes croissants parisienses no café da manhã, encontrei a família no Arco do Triunfo. Mas, como bons americanos, eles escolheram trocar as largas calçadas da Champs Elysée pelo castelo da Eurodisney, o que não me desagradou, já que assim pude incluir loopings deliciosos de montanhas russas no meu diário de férias.
De volta à Madri, de volta ao batente, tirando os (muitos) momentos de visitas familiares que passaram por solo espanhol nesse mês. Família é família, e como a minha é maravilhosa, os momentos que passamos juntos foram igualmente assim.
Tudo bem, teria ainda uns dias até Berlim, não fosse o destino querer que eu fizesse uma segunda parada em Paris, desta vez super improvisada e decidida uns dias antes.
Daí não ter mais voos que custassem menos do que me custaria ir ao Brasil, e daí eu corajosamente decidir encarar uma viagem de 17 horas de ônibus entre Madri e Paris.
Tirando as terríveis dores nas costas - o que me fez aceitar a minha velhice no que diz respeito à viagens de ônibus longas - foi uma linda jornada: cruzamos por mais de uma hora uma infinidade de campos de girassóis, que ansiava por ver, já que tenho um tatuado nas costas, atravessamos cidades lindas com San Sebastián, Burgos, Orleans e dezenas de pequenos povoados no norte da Espanha e no sul da França.
Ok, a viagem me destruiu, mas não a ponto de me impedir de passar dois deliciosos dias em Paris, de onde fui direto pra Berlim, o destino final.
Como normalmente acontece comigo, me apaixonei por Berlim aos poucos. Cheguei cansada, com frio, com sono e com fome, e sem achar a casa do Igor, meu amigo carioca que está encarando um doutorado na Alemanha e me receberia no seu lar berlinense, que eu achei depois de desistir de andar na chuva e apelar para um taxista turco.
Pouco a pouco, fui explorando a cidade, das festas às dezenas de museus, um melhor que o outro, da História que transborda pela cidade aos bares super modernos, das milhares de bicicletas ao verde intenso, da salada de batata (opção alemã para quem não come salsicha) às apfel strudels, da pontualidade e disciplina assustadoras mas muito admiráveis à informalidade de uma cidade extremamente jovem, tudo, absolutamente tudo em Berlim me conquistou - menos os 16 graus que faziam em pleno verão!
Saí de lá com a sensação de que tinha que ficar mais uma semana, mas com a certeza de que foi a chave de ouro para mais um verão europeu
(e, sim, até agora não terminei o trabalho).
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