quarta-feira, 18 de junho de 2014

O verde dos seus olhos


Pai,

Quando você abriu os olhos bem devagar depois de alguns dias de sedação, percebi pela primeira vez que o anel exterior dos seus olhos são verdes. Cor de oliva, como disse a minha mãe. Desde que voltei de Madri, tinha um receio ainda incosciente de não ver mais seus olhos abertos. Só que você dedicou parte de sua vida a dissipar meus medos e me mostrar cores novas. E agora, nem mesmo agora, faria diferente. Naquele dia portanto você não só me olhou de novo, piscou e trocou olhares, como ainda me mostrou algo novo: o verde cor de oliva dos seus olhos.

Mas para ver bem as coisas, feche os olhos.

Foi o conselho que você me deu antes de uma viagem e que, como todos os outros, ouço diariamente através de sua voz baixinha que ecoa, e sempre ecoará, na minha mente.

Fecho os olhos então e enxergo claramente a imagem-símbolo de uma vida que foi vitória: te vejo alto, cabelos pretos ao vento, sorriso largo e peito aberto, avançando imponente sobre as primeiras ondas do mar - onde você foi mais pleno neste mundo. Numa mão, a Bel; na outra, eu, que deitada na pranchinha olhava para cima, você, e para frente, o mar, e ali me sentia invencível, naquele momento cuja barreira do tempo e espaço tento quebrar cada vez que fecho os olhos. De mãos dadas com você, não havia, não há, onda que não me arrisque em avançar. E então avançávamos até a arrebentação, de onde você nos empurrava forte diante da onda que se formava. E lá íamos nós onda abaixo até a prancha aterrar na beiradinha, uma sensação que só não era melhor que a de ver a sua reação. Por isso, eu levantava afobada, com areia no cabelo, no nariz e no maiô só para me virar e te buscar, e lá estava você, no fundo do mar, gargalhando de alegria e com as mãos para cima em sinal de vitória. Depois disso nunca mais uma montanha russa, uma ladeira de patins, uma grande viagem ou qualquer outra grande aventura tinha graça sem essa sua gargalhada com as mãos para cima em sinal de vitória por trás, essa sua torcida apaixonada.

Fecho os olhos de novo para abri-lo lentamente ao ouvir você chamar a mim e a Bel, deitadas no banco do carro durante uma viagem para Vitória, para ver o sol, uma bola vermelha e gigante no horizonte, e depois disso para sempre olhar o sol no horizonte é para mim uma das maiores aventuras desta vida. Um efeito indelével de sua incansável missão em ensinar a nós, e a todos em volta a amar a natureza, o simples, a essência. Amar acordar cedo para ver o sol, ir à feira comprar frutas e depois distribuí-las aos amigos, e ver prazer em tomar um bom banho e calçar um sapato confortável, dois hábitos que, como você dizia, as pessoas jamais precisariam usar qualquer tipo de drogas se percebessem a potência de bem-estar que eles carregam. E penso nisso de olhos fechados a cada vez que termino um banho.

E ao fechar os olhos outra vez posso sentir o vento forte da garupa da sua moto, enquanto você me levava para a escola antes das 7h e ainda me deixava abrir os braços enquanto acelerava na pista vazia.

Fecho os olhos. Abro e, através de uma máscara de mergulho, vejo você sentado no fundo do mar analisando o que há em volta para logo explorar corais e tocas de peixe, para de lá me mostrar uma estrela do mar, e eu sorrir e te pedir para continuar. Porque ali eu podia passar, e passava, horas (só interrompidas pelas subidas ao deque da lancha para aliviar a saturação de sal esfregando nos lábios cubinhos de doce de leite, que você comprava na estrada): horas te observando, no embalo da minha respiração no tubo, passenado pelo fundo do mar, movendo os pés de pato com tranquilidade e fôlego.

Tranquilidade e fôlego.

Acredito que foi assim que você encarou um diagnóstico recebido há oito anos. Desde então, gostaria de frisar, pai, você não teve uma sobrevida.

Você teve uma vida.

Fez três viagens para a Europa, onde fizemos subviagens inesquecíveis, e uma aos Estados Unidos para visitar a família cujo elo, perdido pela dureza de migrações no pós-guerra no leste europeu, você foi o primeiro a refazer em uma visita a Miami aos 17 anos. Ganhou um campeonato de tênis, dançou, fez obras, pescarias e almoços, incontáveis almoços, nos quais você servia o mar, sua grande paixão, e servia o amor, sua grande missão.

Isso foi vida. Sobrevida é aquilo que temos quando não fazemos o que amamos, quando vivemos sem vontade e arrastando os dias.

Meu pai sempre viveu. Seus hobbies e suas paixões faziam parte do seu cotidiano. Andar de moto, jogar tênis, mergulhar, pescar, comprar peixe e ver o mar. E principalmente, amar e conviver com seus amigos e família, prezar e fazer questão da companhia de cada um deles.

À minha mãe, sua eterna namorada, você foi fiel na sua promessa de que seria para sempre. Você amou, foi companheiro, incentivador, protetor, amante, amigo, exercitou diariamente um amor que, esse sim mãe, mais que para sempre, será eterno, esse sim fará com que você continue de mãos dadas com ele aqui e que o encontre algum dia.

À mim e à Bel, foi muito além do papel de pai. Foi nosso amigo e nosso herói. Como naquelas ondas, você nos deu a mão e nos trouxe até aqui; como daquelas ondas você agora nos dá o empurrão final, e como do fim daquela onda sei que você seguirá gargalhando de alegria e com as mãos para cima em sinal de vitória cada vez que te buscar. Obrigada pai, porque você garantiu a nossa formação e garantiu, sobretudo, que realizássemos nossos sonhos de infância: a Bel queria formar uma família, e você a entregou a essa família, em um dia no qual, entre tantos sorrisos, a sua luz estava particularmente forte. Em seu semblante, diante do olhar dos seus melhores amigos da vida toda e de sua família, plenitude. À mim, que queria ter uma carreira, você fez o possível e o impossível. O possível foi a formação, o apoio, a torcida, o orgulho. O impossível, os detalhes, como este que jamais esquecerei: quando eu era pequena, te dizia que meu sonho era aparecer na TV. Você então pegou uma foto minha 3x4 e colou em uma televisãosinha de brinquedo, do tamanho da foto. Cheguei em casa e acreditei piamente que havia aparecido na TV.

Um otimismo que sempre caminhou com você e que garantiu também que você vivesse tão pleno todos esses anos.

Que me enche de orgulho e paz, que deixa essa tristeza mais leve, embora imensa, porque todos ficamos com a sensação de quero mais. Eu queria, claro, muitos mais anos, queria que você conhecesse aqui seus netos, mas sei que vale mais o amor que o tempo, e sei que você conhecerá seus netos de outra maneira, e talvez até mesmo antes de nós. E sei ainda que você experimentou a beleza de ser avô através dos filhos dos seus sobrinhos, com os quais você também praticou a paternidade antes mesmo de ter a sua primeira filha. Acredito inclusive que parte de sua missão era distribuir amor na forma de tio e tio-avô, e um sinal para mim tão claro disso é, além da gratidão nos olhares desses sobrinhos, duas delas terem te escolhido espontaneamente como padrinho de adoção, não por acaso a sua primeira sobrinha, de 41 anos, e a sua última sobrinha-neta, de apenas quatro.

Todos em busca, e agora comprometidos, com seus ensinamentos: comer bem, praticar esportes, encontrar a felicidade nas coisas simples, viajar, cuidar do lar, compartilhar e dar tanto de si à família e aos amigos, ser digno e fiel a nossos companheiros de vida.

Pai, eu também me comprometo a passar adiante esses ensinamentos, até porque são poucas as coisas na vida que não aprendi com você. Há pouco de mim que não é você, e como seu reflexo no mundo prometo dar continuidade à sua proposta de vida. Prometo fechar os olhos para ver melhor e também engraxar minhas botas e limpar meus óculos, não equilibrar copos, celulares e computadores na esquina da mesa, sentar direito diante da mesa de trabalho, comer espinafre e azeite, desfazer a mala ao chegar da viagem. Prometo seguir viajando e prometo você seguirá sendo meu maior companheiro de viagem, e que agora, em vez de whatsapp, prometo que conversaremos em pensamento e em sonhos.

E eis portanto minha promessa: prometo que, sendo Luisa, seguirei sendo também David.

O David que segue presente nas nossas vidas, na nossa memória, nas nossas casas, na rua Visconde da Graça, no clube Piraquê, na ARI, no mar.

O David Moskovics brasileiro, judeu, carioca. Filho de Freida, romena, e Carlos, húngaro.

O David engenheiro civil, 1º tenente, marido, pai, irmão, tio, padrinho, cunhado, primo, genro.

O David vascaíno, piadista, chef de cozinha, tenista, corredor, campeão de natação e vôlei, motocilista e piloto de barco.

O David navegador, mergulhador, o pescador. Amante do mar, onde, fechando os olhos, te verei para sempre pegando jacaré nas ondas com um dos braços esticados, explorando as tocas de peixes com tranquilidade e fôlego;

onde a cada mergulho te verei gargalhando e com as mãos para cima em sinal de vitória.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Beijo de carnaval


Acabou o carnaval assim de repente. Parou a música, evacuou-se a multidão, o bloco passou. Não tem mais nada. Só tem você, e eu, e esse beijo, que congela tudo, que assassina as convenções de tempo e espaço em que insistimos em viver, esse beijo que ousa interromper o carnaval, mesmo que ainda seja seu início. Porque com ele, o beijo, estou aqui e já não estou. Estou aqui, no bloco de rua onde nosso olhar se cruzou, um clichê que só o carnaval justifica. E também com ele, o beijo, já não estou aqui, estou no metrô, e em uma praça, e em uma varanda, e depois de volta ao bloco, desperta por fragmentos da música que de repente escuto, pela sua mão que de repente sinto no meu rosto, pelo cutucão da moça bêbada, que já não lembro se era lá ou no metrô. E de novo na varanda, escutando agora não fragmentos mas toda uma música, sua música, que você dedilha suave nas cordas do violão. O seu dedilhar me desperta dessa confusão temporal e agora te vejo, embora não te veja realmente, afinal ainda estamos mascarados, afinal ainda é carnaval. É? Já não sei, já não penso, só te vejo e te ouço, embora mais do que ver e ouvir, sinto. Porque o que acontece neste momento aqui fora acontece muito mais aqui dentro, neste momento e em qualquer outro, que eu confusa vivo e revivo, num passado e presente cujas barreiras seu beijo derrubou. Logo eu que tenho medo de barreiras derrubadas, do que não é planejado, embora agradeça não ter mais barreiras nem planos, embora agora eu tenha medo do que vai acontecer quando sairmos desta cama, deste vácuo de tempo e espaço. Não quero sentir saudades, mas já tenho saudades até dos carinhos que a sua mão ainda ensaia sobre as minhas costas, do resto de beijos que você ainda nem sequer me deu, mas que sei, num saber sossegado, irracional, que você me dará. E que me provoca nostalgia antes mesmo de esse beijo completar um dia, em tempo curto mas que parece uma eternidade, porque já não tenho lembrança de como vivi sem ele antes disso. Pior, como vou viver sem ele depois. Será que vai dar para respirar sem o seu beijo? Suspeito que não, porque agora me falta o ar justamente quando estou fora dele.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Ouviu?

Te contei um sonho
Quando ninguém escutava.
Ninguém escutava e só você
Ouviu meu sonho.
Ouviu?
Te contei um sonho
Para ecoar meu silêncio
E silenciar o grito dentro de mim.
Fui mar adentro nesse sonho
Te encontrei no mar
Mergulhamos fundo
Eu e você.
Olhamos para cima
E na superfície todos gritavam;
Aqui embaixo, dormiam.
Acordados, só eu e você,
Ouvindo os ruídos ácidos
Dos que dormindo gritavam.
Em silêncio, conversamos
Te contei, em sonho, do meu sonho
E, nele, você ouviu
Quando ninguém escutava
Em silêncio, despertei
E sorri que você ouviu meu sonho.
Ouviu?

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Pensamento

Fiquei pensando quem era você, quando você entrou no metrô sem fazer barulho mas mesmo assim chamou minha atenção. Você me chamou enquanto eu pensava (em que mesmo?) com a mão sustentando a cabeça, que foi aos poucos se endireitando para te ver.
(eu vi).
E fiquei pensando como raios parei de pensar para aos poucos te escutar e ver: seus cabelos que encostam nos ombros, sua calça jeans com cinto, seu tênis preto, e a bolsa de violão que você carregava.
(você mesmo já disse que eu vejo aos poucos)
Fiquei pensando de onde você deveria ser enquanto você guardava o livro, se ajoelhava e tirava o violão da bolsa com calma, e com calma testava as cordas dele antes de levantar e começar a cantar.
(para todos, para mim)
Fiquei pensando como você adivinhou que eu pensava de onde você deveria ser quando você me respondeu com seu castelhano marcado que era espanhol. Claro, espanhol, estamos na Espanha. E foi da Espanha a música suave (qual era mesmo?) que você cantou em seu espanhol marcado.
(marcando a todos, a mim)
Fiquei aqui pensando por que você entrou no metrô naquela hora em que eu pensava,
Fiquei pensando por que você se levantou e cantou acompanhado de seu violão,
Fiquei pensando por que você sorriu tímido mas incisivo
(e se você sorria assim tímido mas incisivo para todos, ou só para mim)
Fiquei pensando o que seria de nós, até que você com sua música já não me deixou pensar.
(Você com sua música me convidou a sentir).

domingo, 14 de agosto de 2011

Como nossos pais

Ele te obriga a comer todo o espinafre e olha feio quando você cospe a granola
(mas são esses dois os primeiros itens que você compra no supermercado quando vai morar sozinha)
Ele te proíbe de ir numa festa que você nunca lembraria mas dá milhas do cartão para uma viagem que você jamais esquecerá
(Aliás, ele hoje viaja com você a cada viagem sua, e te ensina que de olhos fechados se vê melhor)
Ele insiste para você desfazer a mala quando chega de viagem, e não uma semana depois dela, como você faz
(e hoje você a esvazia no mesmo minuto que entra em casa)
Ele te diz sorrindo que "se você está bem, o walkman é bobagem, compramos outro" quando você chega em casa chorando de um assalto no ônibus
(e hoje você anseia pelo mesmo sorriso dele ao contar que comprou um ipad)
Ele dá gargalhadas quando te vê dando loopings na montanha russa, descendo uma ladeira de patins e deslizando sobre uma onda
(e hoje nenhuma dessas coisas tem graça se ele não estiver lá)
Ele diz tranquilo que "vai sim que eu já vou atrás" quando você chora de medo de ir morar longe
(mesmo que hoje ele esteja de braços abertos quando você quiser voltar)
Ele te acompanha em todas as provas esportivas e vibra com igual intensidade pelo primeiro lugar na prova de biatlhon ou o segundo na de natação
(mesmo que só tivessem duas competidoras)
Ele te busca na boate depois das 3h e te leva de moto para a escola antes das 7h, e ainda te deixa abrir os braços enquanto acelera na pista vazia
(embora hoje você o agarre forte quando vai na carona dele)
Ele abandona a partida de tênis quando te vê chorando por uma unha quebrada no jogo de futebol
(e hoje você sabe que ele abandonaria muito mais por muito menos)
Ele torcia o nariz cada vez quando você escolhia festejar seu aniversário no McDonald´s
(para o qual é você quem hoje vira a cara em qualquer dia do ano)
Ele insistia em vão para você levar com a comida do trabalho um vidrinho de azeite
(sem o qual você hoje não come nenhuma refeição)
Ele te puxa da cama para viajar de manhãzinha, mas você briga para levantar depois das 10h
(e hoje você ama ver o nascer do sol do ônibus)
Ele te fala um dia qualquer que se as pessoas se dessem conta do prazer que há em um tomar um bom banho ou calçar um sapato confortável nunca precisariam usar drogas
(e você lembra disso a cada vez que liga o chuveiro)
Ele nem se importa, aliás, que você finja não escutar o que ele diz, porque sabe que está te ensinando a longo prazo
(e não é que você topa todo dia com as frases que ele te disse há 20 anos passeando pela sua mente?)
Ele e você brigam, você não concorda com o que ele diz, ele insiste e diz de novo, você discorda novamente

E até que um dia é ele, veja só, quem você enxerga no espelho quando se olha a si mesma.
(então você percebe que vê o mundo através dele)

E entende, e agradece, que no fim das contas somos como nossos pais.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Despedida

A cada despedida, sempre vai embora um pouco de quem fica. E sempre, a cada despedida, fica um pouco de quem parte.
Seja qual for a partida.
Aqui em Madri, o fluxo de gente chegando e partindo é tanto que sair para uma despedida é tão habitual como ir a um aniversário. Ou mais até, dependendo da época e considerando a crise econômica da Espanha que expulsa cada vez mais os imigrantes.
Mesmo assim, quando se mora longe de casa a sensação é que qualquer relação que estabelecemos é bem mais efêmera, não pela profundidade – às vezes bem maior que as de toda a vida – mas por se criarem e se desfazerem na dinâmica desse vai e vem de pessoas que, casualmente ou não, se encontraram numa determinada cidade, num determinado período de tempo.
São nesses momentos, porém, que, uma nas outras, deixam suas marcas, grandes – como um amor à distância, coisa para valentes – ou pequeninas, como um tapetinho deixado de herança por uma amiga que foi embora de Madri há algumas semanas e que se encaixou perfeitamente no meu quarto. E para o qual, olhando esta manhã, eu voltei a pensar neste tema, especialmente ao lembrar que havia sonhado com o meu avô, por quem nutro outro tipo de saudade, o eterno.
Outro dia, no aeroporto, uma portuguesa sentada ao meu lado dizia ao telefone que também tinha saudade, essa palavra bonita que só se ouve no nosso idioma - salvo em adaptações como a de um amigo paraguaio, que me escreve "eu teñio saudadí" - mas se sente em todos.
Porque ninguém está imune a ter o coração apertado quando move a mão para dar um “tchau”, fisicamente um movimento simples, mas emocionalmente talvez um dos mais complexos.
Porque cada “tchau” está carregado de histórias, sentimentos, sorrisos, lágrimas, palavras ditas e não ditas – essas que apertam ainda mais forte.
Cada “tchau” tem impresso em si a marca de quem fica em quem vai, e a dos que partem em quem deixam. E assim, um no outro, se fazem eternos.

domingo, 10 de abril de 2011

Roda mundo

Meus olhos toparam dispretensiosamente com a etiqueta "hecho en China" da cortina do chuveiro enquanto eu tomava banho hoje no Holyday Inn de Atenas.
Ou seria de Lisboa?
Não, o Holyday Inn de Lisboa foi onde a arrumadeira, romena como minha vó, me ensinou a fazer a cama outro dia. Que dia? já nem lembro. Mas lembro que a cortina "hecha en China", apesar de escrita em espanhol, era mesmo do Holyday Inn - uma cadeia de hoteis dos Estados Unidos - de Atenas, na Grécia, onde estava para acompanhar a visita da presidente brasileira, que foi fazer um pit stop na sua viagem para a China, que é de onde vem a cortina do banheiro do hotel da rede americana no qual eu, brasileira como a presidente (que aliás veio do leste europeu, como meus avós), estava hospedada, em Atenas, na Grécia.
Eu e um árabe, que passava os dias perambulando pelo hotel de turbante. Um bem parecido ao que usava o motorista do ônibus que me leva à sede da ONU em Genebra.
Não, o motorista era do double decker de Londres, onde de repente estou, ao lado do motorista de turbante, da menina com uma das categorias do véu islâmico, das inglesas que desenharam a bandeira de seu país no rosto, marcando na cara sua origem, assim como a menina do véu islâmico do Paquistão.
Ou seria da India?
Pisco o olho e de repente estou no avião de volta a Madri. Ou seria a Londres de novo? Já não lembro, mas sei que sentei ao lado de um menino da China, como a cortina do hotel de Lisboa e para onde a presidente, brasileira como eu, iria após um pit stop na Grécia. Ou seria Lisboa?
Madri. Agora estou jantando em Madri com amigos brasileiros que me contam a história de suas famílias. Um era polonês, fugiu do Holocausto para a Inglaterra e casou-se com uma italiana, com quem para o Brasil, onde nasceu minha amiga que, num movimento oposto, ganhou passaporte da Italia e foi morar em Madri. Outro, depois de se esconder dos nazistas em um porão em Budapeste, fugiu para o Rio de Janeiro, onde combinou de encontrar com a mulher, que, anos depois, baixou ali com os filhos e conseguiu reencontrar o marido por um anúncio no jornal local.
Jornal local. Levei um de cada lugar. Da Grécia (ou seria Londres?), de Londres (ou seria Lisboa ?). De Lisboa (ou seria Grécia?). Disso não lembro, só de que todos eram locais, embora falassem do mundo, embora me mostrassem, os jornais, a cortina chinesa do banheiro grego, a arrumadeira romena, a presidente brasileira, o hotel da rede americana, o avô polonês da minha amiga paulista, o avião irlandês com o passageiro da China, e do Brasil, e de sabe-se lá de onde mais, o quão falido é o conceito de local, o quão estáticas são nossas visões a partir da nossa origem, e não de nosso destino - o mundo -, o quão falsas são as fronteiras nacionais, e o quão verdadeiro é que "somos todos filhos de Deus.
Só não falamos a mesma língua".

terça-feira, 15 de março de 2011

A cidade que se quer

Há dez dias deixei uma temporada de mais de três meses no Rio, a cidade onde eu nasci, cresci e tenho penetrada nas minhas entranhas, e voltei a Madri, a cidade que escolhi para viver há dois anos e que, sorrateira, me faz parte dela, e ela parte de mim a cada nova estadia.
Sempre que penso nisso me vem à cabeça a cena do filme "Avatar" em que o protagonista confessa ao seu videoblog já nem saber qual dos seus dois lados - o humano e o avatar - é o real.
O Rio é minha cidade de origem. Madri é minha cidade de destino - pelo menos por agora -, um destino que escolhi porque...bem, não há um porquê. Há vários.
Um deles é a amizade que Madri - embora nem sempre os madrilenhos! - faz de graça com quem for, da onde for, da cor, cara, opção sexual e dinheiro que tiver. É também a liberdade de caminhar pelas ruas a qualquer hora da madrugada, permitida pela relativa segurança de uma cidade europeia combinada ao movimento noturno de uma cidade que também tem sangue latino. Queria poder descrever a sensação que tive no dia que voltei a Madri ao cruzar a Plaza Mayor às 4h da madrugada, rodeada pelo conjunto de prédios seculares, pintados com a alma de tantas histórias, reconstruídas diariamente.
Outro motivo é a personalidade de Madri, que acho parecida com a minha. É, na minha visão, uma cidade cuja força, beleza e intensidade não se revelam imediatamente e nem tampouco para qualquer um, como Paris, Praga e, claro, o Rio, que esfregam suas qualidades na cara de quem acaba de chegar e que, óbvia e naturalmente, vão atrair a maioria dos viajantes.
Madri não. Madri exige que se enxergue sua beleza perdendo-se por ruelas e topando com prédios, esculturas e paisagens escondidas de tirar o fôlego. Madri exige que se sinta sua força numa caminhada notívaga. Madri exige que se descubra a intensidade com o leve passar dos dias.
Ao mesmo tempo, porém, é uma cidade comportada - para o ponto de vista de uma carioca, frise-se. Cada parte do espaço público cumpre precisamente sua função -, nem mais nem menos que ela -, do transporte aos parques, dos cafés peculiares aos grandes restaurantes, dos (poucos) shoppings aos mercadinhos a céu aberto. Nada escapa de ser exatamente o que se é.
Não nego que esta seja uma visão um tanto poética do que é Madri. É que, ao mesmo tempo que já voltei à rotina de trabalho, mudança e problemas burocráticos, ainda enxergo quase só poesia na cidade, no violino que tocam pelos corredores do metrô, nas árvores indecisas entre ainda ser inverno ou já primavera, nos idiomas que se escuta diariamente - hoje, só no trecho entre a academia e minha casa, teve árabe, francês, chinês e um idioma africano -, no ponto do ônibus noturno que serenamente me leva à casa, no frio que me faz sentir tão viva, nos passos que dou e através dos quais sinto que a cidade já é um pouco minha, e eu um pouco dela.
Porque cada um É da cidade que QUER.
Eu sou do Rio.
Eu quero Madri.

(p.s.: a foto acima é de um cartãozinho que ganhei enquanto caminhava pensando sobre este post)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Aurora

A cidade já clareou mas ainda descansa silenciosa, às 5h40 desta segunda-feira. É um silêncio atípico, de um Rio de Janeiro que é caos por essência. O fim do horário de verão permite essa combinação rara nesta época do ano por aqui: já é dia e ainda é silêncio. Ainda dormem o ruído da obra, das máquinas de lavar roupa, dos vendedores da praia, do samba em qualquer esquina neste pré-carnaval.
As calçadas ainda não fervem, embora o sol se reflita nas árvores do Jardim Botânico. Daqui, imagino a efervescência que certamente já despertou quase todas as favelas da cidade. Mas aqui ainda é silêncio.
É um silêncio falso, eu sei. Melhor: uma pausa de algumas horas do fervilhante cotidiano carioca. Mas é um silêncio que está ali, que também existe, que me faz até sentir saudades do inverno europeu, dos dias frios em cafés onde quase não se fala, só se observa, se aprecia, se reflete, se cala.
Aos poucos, o caos vai retomando seu espaço. O menininho aqui do lado sai pra escola brigando com a mãe, a ignição de um carro é ligada, seguida de outra. O jornal aparece na porta, a Dida chega e já abre a tábua de passar roupas. A minha irmã sai para correr. Inauguram-se os discursos no Facebook dos meus amigos brasileiros (porque os espanhóis, quatro horas à frente, já estão na ativa), além dos cantos dos pássaros e da cigarra nas árvores.
Volto para a sala e o dia já ferve, embora não seja nem 7h30. Desisto de dormir e vou tomar café, porque, mesmo que eu queira, o caos já não deixa. A obra do lado já não deixa. A aurora já devolveu ao Rio sua condição sine qua non, e às 7h30 a pulsação da cidade ferve dentro de mim.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Parto?

- Boa tarde, queria marcar um parto.
(silêncio)
- Dia 20, às 8h, por favor.
(silêncio)
- Hmm ok. Às 10h então.
(silêncio)
- Sim, doutora XXXXXX.
(silêncio)
- Feto único.
(silêncio)
- Paciente XXXXXX. Nascida em 10/07/1978. Primeira vez.
(silêncio)
- Plano Unimed Nacional Platinum Plus.
- Obrigada.

(silêncio)

Estação

Uma pipa pendurada no alto da árvore. Ladeira acima. Uma estação, Cantagalo. Outra estação, o verão.
E a vontade de você.
Lá em cima, as centenas de casinhas iluminadas. O elevador onipotente. O mar. O infinito. O fôlego perdido. (mágica).
E a vontade de você.
Lá em cima, daqui da rede, a vida ao vivo. A efervescência silenciosa da noite na favela. Os meninos jogando bola, embaixo da moça que se troca com a porta aberta, sob a família que vê TV, em cuja lage os rapazes que consertam a antena (ou fazem um gato talvez). Todos abaixo do céu, embora bem perto dele.
E a vontade de você.
Champanhe, música, êxtase, debate. Calor. Uma brisa provocante. Um convite para um banho noturno. Agora ladeira abaixo.
A pipa ainda pendurada no alto da árvore. Silêncio. A lua, que "boia no céu imensa e amarela", incrivelmente amarela, incrivelmente baixa. (mágica).
O calçadão. O mar gelado. E o nosso encontro, enfim. Misturado de mar, misturado de areia. Na alta madrugada da quarta-feira carioca. Sob a benção de uma estação, o Cantagalo. E de outra estação, o verão.


segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Na beira

Me dei conta ali na beirinha, ao ver o menino que feito peixe sumia no feixe entre a onda e o fundo do mar, os amigos que conversavam tranquilamente no meio da arrebentação, a menina que se protegia dos caixotes atrás do namorado.
Me dei conta com o tronco fincado na areia, esperando um intervalo entre uma onda e outra para mergulhar - quer dizer, para abaixar rapidamente a cabeça na água:
caramba, virei uma pessoa que fica empacada na beira do mar.
Eu, que aos dois anos fui arremessada do barco no mar revolto de Cabo Frio pelo meu pai, um engenheiro e mergulhador - influência do meu avô, um fotógrafo e pescador -, virei uma pessoa que fica empacada na beira do mar.
Tudo bem que minha mãe me esperava de braços abertos, mas aquele mergulho forçado selou minha amizade com o mar, que carreguei com zelo até... até virar uma pessoa que fica empacada na beira.
Dali pra frente, não precisei mais ser tacada no mar. Por minha conta em risco, me jogava sozinha cada vez que o barco se aproximava de alguma praia, bem longe de atracar. E de lá só saía para roubar uns camarões fritos que o "dono" da ilha servia na areia ou para esfregar cubinhos de doce de leite no lábio, o melhor alívio da ardência do sal que já existiu. Tirando esses intervalos, eram horas e horas observando desde a superfície o meu pai mergulhar e ouvindo o ritmo da minha respiração no tubo.
No Rio, encarava tranquilamente as ondas, ultrapassando uma a uma, até chegar ao ponto em que o mar me abria os braços. E aí a nossa amizade era plena.
Na volta, deslizava com a prança até a beirinha, esta mesmíssima onde hoje me encontro empacada.
Daqui da beirinha, começo a lembrar da adrenalina de furar uma onda, da taquicardia de ser engolida por ela quando não dá certo, do alívio furtivo de voltar à superfície, agora com ainda mais vida, valorizando cada mínima porção de oxigênio. E da plenitude do encontro com o mar lá depois das ondas.
E para chegar lá, penso, deve ser mesmo preciso sair daqui da beirinha e enfrentar o sacolejo das ondas. Se propor ao risco.
Pode até não dar certo, mas concluo que ainda assim é melhor que fincar a perna na beira esperando (horas, dias, anos,...) um mar sem adversidades para poder boiar.
Então tá, começo a tentar enfrentar as ondas. Vou. Não vou. Tento de novo. Volto. E assim sucessivamente, até meter a cabeça numa onda, que delícia, mas logo voltar correndo ao ponto de partida.
Tudo bem, vou sem pressa - o mar também se revela paciente. Lembro da técnica da exposição ao risco que minha amiga psicóloga me ensinou. Então volto a me expor.
Mais dois mergulhos. Três. Quatro. Dez. E no décimo a energia da água me toma por completo. Olho para os lados - de um o Arpoador; de outro, as pedras do Leblon. Sobre mim, o sol pungente. Não resisto.
Choro por ele, pelo mar, pelo que tinha visto esta semana, por estar perto dos meus amigos e família. E nem ligo para o clichê, até porque agora faz ainda mais sentido o meu amigo que publicou no facebook estar muito feliz por "apenas" sentar com amigos num bar.
Porque selei a volta da minha amizade com o mar, embora não tenha chegado ao fundo, embora saiba que ela ainda terá muitos altos e baixos. Agradeço, acaricio a beira com os pés. A beira à qual hoje não fiquei empacada.

domingo, 14 de novembro de 2010

Rio-Madrid-Rio-Madrid-Rio...

Há duas semanas, aterrissei no Rio depois de exato um ano desde a última vez que estive por aqui. Desembarquei 16 de novembro, o mesmo dia em que, no ano passado, parti novamente pra Espanha rumo a uma segunda edição da minha estadia por lá.
Depois de um inverno que durou quase seis meses, de muito trabalho e muito estudo mas também de muitas viagens, muitas visitas e muitos novos amigos em Madri, vim fazer um pit stop estilo Rubinho (beeem demorado) na minha terra.
Uma das (únicas) coisas legais de ficar um ano fora da cidade que se viveu toda a vida é começar a notar como ela está em constante transformação. Desta vez, reparei mudanças que vão desde "novas" palavras como UPP e "DR" (Unidade de Policiamento Pacificadora e Discussão de Relação, para os analfabetos do dicionário carioca contemporâneo) às regras atuais que as meninas da zona sul temos que seguir, como pintar unhas de azul-piscina e rosa, fazer luzes californianas e achar barato um vestido de R$ 200.
Mas acho que o que mais dá prazer nesta minha fase atual de revezamento entre Rio e Madri é aproveitar tudo em dobro nas duas cidades. Não consigo até agora - nem acho que um dia conseguirei - descrever a ansiedade que me fez quase explodir quando literalmente corria pelos corredores do aeroporto do Rio em direção ao portão onde me recepcionavam meus pais (que, by the way, parecem que ficaram um ano mais novos!), minha vó e minha irmã. E menos ainda a plenitude de abraçá-los. Nem a alegria de chegar em casa e encontrar minhas amigas me esperando para um lanche com requeijão e mate. Nem a emoção de encontrar cada amigo e a família aos poucos, desde uma mega-reunião na praia do Leblon a esbarrões casuais na padaria. Nem o prazer de dormir na minha cama como uma princesa, de sentir o ar do Jardim Botânico entrar na minha janela a cada manhã, de nadar e me deixar absorver pelas águas cristalinas do Arpoador e até do calor sufocante que senti nesta tarde quando voltava de ônibus do Centro.
Da mesma maneira que me faltam palavras para registrar a emoção que senti no dia em que desci do metrô em Madri no fim do ano passado, quando me lancei numa nova jornada nessa cidade, que agora já conhecia, da qual já era parte de alguma forma.
Claro que há sempre dúvidas, incertezas e outras coisas chatas, mas como escrevi no ano passado, sigo com a sensação maravilhosa dar passos sobre um caminho que, embora não tenha um destino bem delimitado, é feito por mim, de perceber que, realmente, "o que a vida quer da gente é coragem". O resto vem no pacote.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mistura


Outro dia, conversava com uma amiga polaca sobre seu noivo peruano, ao lado de uma paraguaia que casou com um espanhol, uma alemã que cresceu no Paraguai e de uma equatoriana cujo pai tem nacionalidade espanhola, quando percebi que eu, que me orgulho de vir do país da mistura racial, nunca tinha visto tanta gente diferente em um só lugar antes de vir à Espanha.
Ok, não é uma comparação muito legítima, a da Espanha com o Brasil, já que nós temos séculos de experiência no cruzamento de portugueses, índios, negros e quem mais se achegar.
Na Espanha, por outro lado, a mestiçagem é muito nova, porque aqui, ao contrário de muitos países europeus, a imigração é recente, coisa dos anos 90 pra cá, e, por isso, essa mistureba de gente também.
Talvez ainda não tenha alcançado sequer a segunda geração. Mas, pelo que se vê nas ruas, já é uma das grandes características da cidade.
E eu adoro sair na rua e ver rosto de tudo quanto é tipo, dos africanos com a pele brilhante de tão negra à transparência dos europeus do norte que passeiam por aqui, dos chineses que se apoderaram do pequeno comércio da cidade aos romenos que chegaram em massa depois de entrar na União Europeia, dos marroquinos que vendem DVDs piratas aos músicos latinos que poetizam a rotina com shows improvisados no metrô.
É no metrô, aliás, onde melhor se pode atestar essa mistura. Sempre que entro no vagão trato de olhar para os lados e não dá outra: é chinês sentado junto de peruano, do lado da poloca, de frente pro espanhol, que tenta entender o inglês da conversa das estudantes americanas.
E, claro, há sempre um grupinho de brasileiros fofocando, enquanto eu trato de ouvir tudo, dissimulando com a minha cara de não brasileira, fruto também de uma boa mistura!
p.s.: a foto que ilustra este post foi tirada no parque do Retiro, aqui em Madri.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Mudança(s), 2

Nesta madrugada, fui acordada por uma luz forte, como um holofote. Abri os olhos e lá estava ela, a lua de Madri, que me fitava pela janela com a mesma força do dia em que encontrei meu primeiro apartamento aqui, no ano passado.
Mas, peraí, eu disse janela?
Sim. O que quer dizer que já não moro mais na calle del Limón, 1, onde passei dez meses num quarto sem janela.
Daí meu encanto em, no meio da noite, ser acordada pela lua e, no início da manhã, pelos raios de sol que agraciavam meu corpo, já desacostumado em ver a luz do dia pela manhã. "Na casa que não entra o sol, entrará o médico", diz um ditado popular turco, segundo meu amigo da Turquia que abriu seu apartamento aqui em Madri para me receber.
Ele tinha um quarto sobrando, que, somado ao fim do meu contrato no apartamento - que não quis renovar -, resultou na minha mudança (na qual pude atestar, de novo, minha capacidade de juntar tralhas) pra cá.
Com "cá", me refiro à região de Cuzco, um bairro residencial mais para o norte de Madrid, longe do centro, onde já tinha me acostumado a morar. Mas assim será uma oportunidade para conhecer outra cara da cidade, mais nova, menos tradicional.
Ou seja, foi uma mudança de ares também, embora não a única: mudei ainda de rotina, já que, um dia antes de vir para cá, apresentei o trabalho do doutorado que vinha fazendo desde o fim das minhas aulas, em junho (e que, by the way, fui aprovada!), depois de disfrutar de uma deliciosa semana de muitos filmes e pintxos no festival de cinema de San Sebastián.
Passada essa viagem, a defesa do trabalho na banca e um agradável fim de semana com as amigas, enfrento agora uma rotina de trabalho, que, como faço de casa, posso revezar com uma incursão pelos canais de tv a cabo que agora disfruto (um mundo a parte para quem tem que aguentar a sofrível televisão aberta espanhola).
Por isso, ainda não deu tempo de explorar a região, embora dê para espiá-la da enoorme janela da sala, uma pequena grande mudança.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

As férias 2


Hoje uma folha de outono caiu despretensiosamente sobre a sacada da minha janela, num sutil presságio do fim do verão, anunciado também pela queda gradual das temperaturas.O que me lembrou que ainda faltava por relatar aqui meu verão de 2010.
Desta vez não passei pelas loucuras do ano passado , como morar em um barco, ir numa praia louca, se demitir de um trabalho semi-escravo, perder o voo ou mudar de destino de um dia pro outro. Mas mesmo assim teve muita aventura e ótimas lembranças: pela primeira vez na vida, vi uma estrela cadente e plantações de girassóis, dois arco-íris, revi pessoas queridas que não via há dez anos e conheci outras tão maravilhosas quanto, passeei duas vezes por Paris, dancei salsa em Berlim e me apaixonei (por uma cidade!).

As férias começaram oficialmente no sul de Portugal para onde fui na última semana de julho, depois de quase todo o mês de bastante trabalho no restaurante, pra rádio e pro jornal e nenhum estudo.
Gente chorando, gente gritando, gente brigando, gente correndo, gente deitada no chão, gente na fila. Muita gente. Esse foi o cenário com o qual me deparei na chegada ao aeroporto de Madri, que cospe gente pra fora durante os meses de julho e agosto, tanto de europeus desesperados pelas praias espanholas quanto de espanhóis desesperados por sair da cidade.
Depois de assistir um pouco daquele circo e sofrer uma horinha na dura cadeira da Ryanair, aterrissei em Faro, no sul de Portugal, onde encontrei minha irmã, minha prima Carol, que finalizava um intercâmbio no Porto, e a portuguesa Rita, que nos acolheu na sua deliciosa casa de praia no Algarve, a região sul de Portugal que todos deveriam conhecer um dia.
Tomei um banho literal e figurativo de mar, este que já não provava há uns bons 10 meses, além de passear de barco, mergulhar, comer maravilhosamente bem - como sempre se faz em Portugal, aliás - e me balançar muito na rede da varanda da Rita, de onde vi, pela primeira vez na vida, uma estrela cadente.

Cinco dias depois e voltei à realidade, que no meu caso era terminar meu trabalho de qualificação do doutorado, que tinha que ter começado em junho - à tempo de embarcar numa viagem para Berlim no fim de agosto. Ledo engano...

Como no ano passado, o acaso me conquistou também neste verão, e me levou a Paris duas vezes no mesmo mês (que chato!). Na primeira delas, fui reencontrar a família que me recebeu durante meu intercâmbio pros Estados Unidos há dez anos, e a quem eu não via desde então. Depois de ser ótimamente bem recebida por um arco-íris e pela minha amiga franco-portuguesa Babeth no seu apê com a varanda de cara para a Sacre Couer, de onde saboreei os indecentes croissants parisienses no café da manhã, encontrei a família no Arco do Triunfo. Mas, como bons americanos, eles escolheram trocar as largas calçadas da Champs Elysée pelo castelo da Eurodisney, o que não me desagradou, já que assim pude incluir loopings deliciosos de montanhas russas no meu diário de férias.

De volta à Madri, de volta ao batente, tirando os (muitos) momentos de visitas familiares que passaram por solo espanhol nesse mês. Família é família, e como a minha é maravilhosa, os momentos que passamos juntos foram igualmente assim.
Tudo bem, teria ainda uns dias até Berlim, não fosse o destino querer que eu fizesse uma segunda parada em Paris, desta vez super improvisada e decidida uns dias antes.
Daí não ter mais voos que custassem menos do que me custaria ir ao Brasil, e daí eu corajosamente decidir encarar uma viagem de 17 horas de ônibus entre Madri e Paris.
Tirando as terríveis dores nas costas - o que me fez aceitar a minha velhice no que diz respeito à viagens de ônibus longas - foi uma linda jornada: cruzamos por mais de uma hora uma infinidade de campos de girassóis, que ansiava por ver, já que tenho um tatuado nas costas, atravessamos cidades lindas com San Sebastián, Burgos, Orleans e dezenas de pequenos povoados no norte da Espanha e no sul da França.
Ok, a viagem me destruiu, mas não a ponto de me impedir de passar dois deliciosos dias em Paris, de onde fui direto pra Berlim, o destino final.

Como normalmente acontece comigo, me apaixonei por Berlim aos poucos. Cheguei cansada, com frio, com sono e com fome, e sem achar a casa do Igor, meu amigo carioca que está encarando um doutorado na Alemanha e me receberia no seu lar berlinense, que eu achei depois de desistir de andar na chuva e apelar para um taxista turco.
Pouco a pouco, fui explorando a cidade, das festas às dezenas de museus, um melhor que o outro, da História que transborda pela cidade aos bares super modernos, das milhares de bicicletas ao verde intenso, da salada de batata (opção alemã para quem não come salsicha) às apfel strudels, da pontualidade e disciplina assustadoras mas muito admiráveis à informalidade de uma cidade extremamente jovem, tudo, absolutamente tudo em Berlim me conquistou - menos os 16 graus que faziam em pleno verão!

Saí de lá com a sensação de que tinha que ficar mais uma semana, mas com a certeza de que foi a chave de ouro para mais um verão europeu

(e, sim, até agora não terminei o trabalho).

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Portas

Não sejamos aquele que espera que se lhe abra uma porta na parede que não tem porta.
Esta é a frase que me vem à cabeça na noite desta sexta-feira 13 (!), depois de assistir na tv espanhola ao belíssimo filme "O Jardineiro Fiel" e, em seguida, escutar outra vez a notícia de que 42% dos jovens espanhois estão desempregados, tudo isso enquanto tentava seguir com o meu trabalho de fim de curso.
E foi tentando estudar que me deparei, enquanto abria mais uma tese para começar a ler, com o poema Tabacaria, de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa (aquele do "não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"). "O mundo é para quem nasce para o conquistar" diz a primeira frase do poema citado pelo autor da tese.
Pronto, estava aí a desculpa perfeita para parar de estudar e dar uma passada aqui no blog.
É que, embora pareçam sem nexo, estas três informações - o filme, os jovens desempregados e o poema - me disseram a mesma coisa. Me disseram da importância de deixar pegadas no mundo, como fazem os protagonistas de "O Jardineiro Fiel" (se não viu o filme vá vê-lo!), o autor que concluiu sua tese que agora leio e o próprio Fernando Pessoa, que, mesmo escrevendo da sua sina em "não ser nada", nesta sexta-feira 13 de 2010 me tocou com palavras escritas em 15 de janeiro de 1928, dia do aniversário da minha vó, que penso estar aqui comigo agora.
Mas as três informações me disseram também da angústia em não conseguir deixar essas pegadas, angústia que deve sentir boa parte desses milhões de jovens desempregados, que a Organização Internacional do Trabalho chamou esta semana de "geração perdida", angústia que sinto eu cada vez que não consigo avançar com meu trabalho e que deve ter sentido o poeta ao escrever que "serei sempre aquele que só esperou que lhe abrissem a porta ao pé da parede que não tem porta".
Embora estivesse sozinha no meu sofá numa noite de uma sexta-feira com festas típicas pelas ruas do caloroso verão madrilenho refletindo sobre essa angústia, não pensei em entrar em depressão. Nem se eu quisesse: na mesma hora recebi uma ligação do Skype do meu primo no Rio (como eu amo o Skype)!
O fato é que tudo isso me fez refletir sobre a importância de cada passo, de cada pegada que se deixa no mundo (sobre as quais já escrevi aqui). De não ser, ou pelo menos tentar não ser, aquele que espera que se lhe abra uma porta na parede que não tem porta.
Até porque paredes estão aí para serem derrubadas.

(p.s.: No próximo post deixo minhas reflexões abstratas para contar novas aventuras da edição de 2010 das férias de verão. Enquanto isso, quem quiser pode ler as de 2009, parte 1, 2 e 3).

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Tempo

Na noite do último dia 16 sonhei com meus amigos da escola, acordei e me dei conta que no fim do ano completamos dez anos de formados.
Foi no mesmo dia 16 em que completei exatos 1 ano e sete meses desde o 16 de janeiro de 2009 em que vim a Madri, e outros nove meses desde o 16 de novembro em que comecei minha segunda fase aqui (sim, eu só viajo dia 16 hehe).
Claro que não é novidade nenhuma dizer que o tempo voa, mas...como o tempo voa!
Aqui em Madri, por exemplo, já entramos no alto verão, época de viajar, fazer piquenique à meia-noite, ir à piscina e..er..estudar, uma tarefa um pouco difícil nesses tempos. Mas, em defesa própria, digo que tenho trabalhado muito também, o que tem me tomado mais tempo, esse que insiste em voar, até aqui no Velho Continente.

sábado, 3 de julho de 2010

Repetições e novidades


Depois de um ano e meio morando em Madri, entrei na fase da repetição. Começo a ver outra vez os mesmos eventos do ano passado: a parada gay, que acontece hoje e sobre a qual escrevi ano passado, a procissão de Santo Antônio, o torneio de tênis de Madri, as liquidações de inverno e de verão e por aí vai.
Mas nesta semana vi uma cena que não só foi inédita para mim como também uma das mais bonitas que presenciei neste ano e meio: uma tuna, um grupo de universitários que fazem serenatas vestindo e tocando tal qual no século XV.
Sim, em pleno século XXI e em plena metrópole europeia ainda existem jovens que fazem serenatas. E meninas que vão para a janela escutá-las, como as da que vi esta semana.
A tuna é uma tradição ainda forte na Espanha. É formada por jovens universitários de uma mesma faculdade que, com instrumentos como pandeiro, acordeon e variações do violão e violoncelo, e vestidos com trajes antigos, tocam e cantam, em altos agudos, músicas do folclore europeu e iberoamericano (sim, existe folclore também por aqui).
Foi com essa tradição que me deparei as 22h30 de uma quinta-feira, quando caminhava pelas ruelas do boêmio bairro de Malasaña em direção a um bar. Lá estavam eles, os universitários, no meio da rua, no meio da noite quente, e em meio a moradores e pedestres que pararam para apreciar e cantavam juntos algumas das belíssimas músicas - "é que eu também fui ´tuneiro´ na faculdade", me contava um senhorzinho que sabia todas as canções.
Mas a verdadeira plateia era o grupinho de meninas do quinto andar do prédio, que, com cigarros, chales flamencos e o mesmo ar blasé das moças de outrora, assistiam à apresentação de seus admiradores, que, além de cantar e tocar, dançavam passos tímidos mas coordenados de um lado para o outro.
Foi pra mim um legítimo show, mesmo que sem palco, sem ingressos, sem técnicos de som e luz e no meio da rua, este que é o verdadeiro palco da vida madrilenha.
Foi um momento para o qual espero repetições.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Extremos

Lembra que falei que a primavera finalmente estava chegando aqui em Madri? Ledo engano. Ela nunca chegou.
Quem chegou foi o verão. Chegou não, invadiu, com seus 35 graus, 20 a mais do que os termômetros marcavam há algumas poucas semanas.
Madri é mesmo um lugar de extremos e, com o clima, não é diferente. Este ano, o inverno durou até maio, quando, num belo dia, os termômetros amanheceram em 30 graus. Rondaram essa temperatura por semanas, até se esborracharem outra vez para os 13 graus!
Hoje, uma quinta-feira de "amenos" 17 graus, eu, que aproveito um dia de folga para também me revezar entre os extremos de (não) estudar e ver Gossip Girl no computador, acabo de sentir outra manifestação desse tempo louco: um vento poderoso que bateu na minha cara enquanto estava sentada no sofá da minha sala, cuja janela, que dá para o pátio interno, pouco sabe do que se passa lá fora.
Acho que foi um recado: é hora de sair! Não fosse uma crise de gastrite que me pegou outra vez esta semana (xô gastrite!), já teria corrido pra comer uma sobremesa na doceria. Mas, mesmo assim, vou aceitar o convite do vento e aproveitar esse break dos extremos e andar na rua sem congelar e fritar. Hasta luego!