terça-feira, 16 de junho de 2009

Do bar árabe ao brasileiro em 24 horas. Brigada, meu anjinho

Sabe essas histórias loucas do tipo uma reviravolta em 24 horas, uma pessoa que vira seu melhor amigo em duas horas e ficar até as 6h na rua vagando pela noite? Nunca acontece comigo. A minha prudência e os meus pés fincados no chão não permitem.
Não permitiam, ou melhor, não permitiram entre a noite de sexta e de sábado passados, período em que fui da biblioteca pro bar para trabalhar, fiz uma amizade no meio do caminho, briguei com o dono do bar, saí de lá pra (espero) nunca mais voltar, varei a madrugada madrilenha conversando com o novo amigo, fui a uma procissão na manhã de sábado, fiz uma sessão de fotos (como fotógrafa, claro), fui a uma entrevista e consegui um novo emprego.
Ok, agora explico com a minha tradicional calma e lentidão.
Como já contei antes, estava trabalhando em um bar árabe nos fins de semana. Não era bem a idéia romântica que eu tinha de trabalhar num café europeu, aonde as pessoas pediam um muffin com chocolate quente enquanto liam seus livros de sociologia com a mão o queixo e as pernas cruzadas sobre delicados banquinhos e ao som de uma música leve de fundo. Mas era uma grana, e só por isso já valia.
Valia, eu disse bem. Não foi pelo trabalho cansativo e braçal, pela concentração constante pra não derrubar nenhum copo, pela música horrível que penetrava nos mes sonhos mais profundos, por esfregar o chão e caminhar 15 minutos até o ponto de ônibus depois do expediente. Nada disso me faria sair correndo dali.
Mas os árabes começaram a encher o saco. Além de muito grossos e estúpidos, os dois ficavam no bar o tempo todo e me faziam exigências, cada qual a sua maneira, o tempo todo, do tipo obrigar um casal a se mudar de mesa, dar bronca num grupo de meninos que demorava a se decidir pela bebida e proibir a venda de chás orientais depois da meia-noite, mesmo que a pessoa tivesse ido até o bar unicamente para prová-los.
Embora a minha alma carioca quisesse mandá-los pra puta que os pariu o tempo todo, pratiquei minha paciência e fui levando. Até que um dia...
O dia era sexa-feira 12 de junho, e eu andava em direção ao bar procurando desesperadamente uns chineses que ficam na Puerta del Sol oferecendo massagens em um banquinho, pra aliviar a tensão nas costas. Não achei, então fui caminhando tranquilamente até que, do nada, decidi entrar num café, que tocava Jorge Drexler, um cantor uruguaio que eu adoro. Que coincidência, pensei, pouco antes de o garçom do lugar me perguntar, do nada, se eu era brasileira. Que coincidencia, repeti, agora em voz alta, quando ele me falou que teve a sensação que o próximo cliente a entrar seria brasileiro, pra traduzir um poema em português do Chico Buarque que ele tinha nas mãos.
Depois de traduzir uma parte, disse que se desse tempo voltava lá porque trabalhava ali em frente, apontado qual era o bar. Fiquei pensando naquela coincidencia durante a jornada de trabalho, mais uma vez estressante, até que, quase no final, o tal do garçom me aparece lá, dizendo que me esperaria sair.
Um dos árabes, que já tinha demonstrado umas pontas de ciúmes sempre que eu conversava com qualquer pessoa do sexo masculino - o que estava me deixando seriamente preocuapada - olhou com cara feia e aí pronto, foi o que faltava. Ele ficou puto ao perguntar se o garoto era meu amigo e descobrir que eu o tinha conhecido naquela noite, começou uma discussão, os argentinos que trabalham, e que já tinham me alertado sobre a incompatibilidade do nosso sangue latino com o deles, lá levantaram, enfim, armou-se um circo.
Aí sabe aquelas cenas de filme que congelam e um personagem fica de fora analisando? Foi exatamente assim que me senti. Pensei: não, peraí gente, O QUE QUE É ISSO? que lugar é esse??? socorro.
Resumindo, já que isso tá virando capítulo de livro, saí de lá naquela sexta pra nunca mais voltar, e quando coloquei o pé pra fora lá estava o tal do garçom me esperando. Se desculpou e disse: acho que te arrumei um problema. Eu olhei e disse: não, acho que você me tirou de um problema.
Depois de ficarmos até as 6h conversando (sim, conversando) na Puerta del Sol sobre as coisas mais loucas como se fossemos amigos desde o Jardim II - o que foi aos poucos me despindo da energia pesada do bar árabe - nos despedimos e eu voltei pra casa, tomei um banho, deitei na cama e pensei: obrigado, meu anjo da guarda, por enviar alguém pra me tirar dos caminhos errados e me colocar nos bons.
Acordei tarde no dia seguinte, 13 de junho, mas a tempo de ir na Igreja de Santo Antonio em homenagem ao dia dele (não, não fui pedir marido). Depois de também agradecer e tirar fotos da comemoração, fui num restaurante brasileiro perto da minha casa onde havia deixado um currículo há tempos e que agora, justo agora, precisavam de um extra.
Saí de lá com um novo trabalho - agora entre brasileiros, pães de queijo, feijoada, aipim, cajuzinho, DVD do Paulinho da Viola - mas, principalmente, muito feliz com a sensação, a mais forte que já senti, da proteção e das mãos que constantemente se estendem a mim.

Bom, pra amenizar, umas fotos da procissão de Santo Antônio:

Mocinhas fantasiadas na procissão


"Meninas" na fila da tradição do alfinete (elas colocam a mão no bolo de alfinete e o número de alfinetes que grudarem na mão, diz-se, é o número de maridos que a moça terá)


Casal na igreja de Santo Antônio

terça-feira, 9 de junho de 2009

Eu, Luisa B., 26, jornalista, garçonete, estudante, dona de casa, assessora de imprensa de ONG, imigrante e candidata a doutoranda

Tá, todo mundo é um pouco de tudo na vida, mas acho que eu nunca tinha sido tanta coisa ao mesmo tempo. Me dei conta disso a caminho da aula numa tarde em que tava me sentindo meio tonta. No mesmo dia, contabilizava uma entrevista de (sub)emprego, outra para um estágio, uma pesquisa na biblioteca para um trabalho do master, uma entrevista (agora como entrevistadora) para uma reportagem e a entrega de uma documentação pra um programa de doutorado.
Por coincidência, ou não, topei nesse mesmo dia com um artigo do New York Times dizendo justamente como fazíamos tanta coisa que não prestávamos atenção verdadeiramente em nada. Pareceu um recado pra mim.
Agora explico um pouco o título: Depois de semanas distribuindo currículos pela cidade, comecei a trabalhar nos fins de semana num bar árabe(sim, eu já quebrei um copo), no maior estilo "mil e uma noites", com mesinhas e banquinhos baixos, luz fraca, música ambiente e muita narguila, aquele fumo árabe. A galera fica lá no maior relax, enquanto eu corro pra lá e pra cá até as 3h30, quando paro pra fazer a faxina final. Depois de uns 15 minutos de caminhada até o ponto de ônibus noturno e de um bom banho pra tirar o cheiro da narguila, eu caio dura na cama lá pras 6h!
Ao mesmo tempo, estamos na reta final das aulas do master, com entrega de trabalhos semanais. A partir de julho, entro na fase "prática", uma espécie de estágio que eu vou cumprir numa ONG de meio ambiente até o fim de julho, quando então finalizo o processo de inscrição pra um doutorado.
Isso tudo pra não falar de uma atividade que tem tomado muito o meu tempo: procurar passagens baratas nas companhias "low cost". Gente, é um vício, cada vez que você entra no site as passagens tão mais baratas. Hoje mesmo eu encontrei três por 1 euro. Sim, disse 1 euro.
Mas mesmo toda essa agenda de "compromissos" não faz frente a essa rotina louca de trabalho que temos no Brasil. Ainda consigo fazer almoço e comê-lo tranquilamente (lembre-se que estou no país da siesta), dar uma corrida de manhã e enrolar bastaaaante na cama. E quando estamos fora do prazo de entrega de trabalhos, ainda dá pra passear por aí e aproveitar as dezenas de opções culturais que rolam pelas ruas de Madrid. Seguem fotos das que eu fui esse domingo:


Estréia de um filme de Bollywood (a Hollywood da India) numa praça de Lavapiés, o bairro tradicional de imigrantes. Reparem na construção ao fundo.


Eu e Bia no Starbucks depois de uma "maratona" pela Photo España, uma mega exposição de fotos em vários museus e centros culturais da cidade.


Dança indiana na rua.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Ai que calor ô ô...


...e não foi (só) porque eu vi o Rafael Nadal de pertíssimo não! O tempo realmente foi camarada e me presenteou com dias de 30 graus essa semana.
Pela primeira vez no ano, eu suei! Tudo bem que fiquei andando pra lá e pra cá nesta semana, para cobrir a visita da comissão do COI aqui em Madri, a mesma que estava no Rio, pra avaliar a candidatura de ambas pros Jogos Olímpicos 2016. A visita terminou hoje, depois de um almoço no Palácio Real com os reis da Espanha e espanhóis ilustres como o Rafa Nadal e um jogador do Real Madrid que nem me importa saber o nome.
Sim, o Rafa é lindo, e não, eu não almocei no Palácio Real, apenas fui cobrir e logo voltei pro hotel onde estava a comissão. Mas me lembrei dos bons tempos com papi e mami e decidi ir almoçar num restaurante que eu já namorava faz tempo uma bela massa.
Depois de sair correndo pra aula e voltar correndo pra bater a matéria, fui encontrar duas amigas em Lavapiés, um bairro tradicionalmente de imigrantes (muitos árabes e africanos), mas que tem uma vida noturna bem ativa. Na volta, a caminho do ponto de ônibus, embarquei num devaneio notívago, observando esse movimento absurdo de gente as 3h, do argentino tocando violão e o casal dançando flamenco na Puerta del Sol aos bandos de universitários com suas sacolinhas na mão.
Um p.s.: gente, eu tenho que falar dessas sacolinhas, é uma mania que eu acho horrível desse povo aqui. Eles compram umas bebidas vagabas nos "chinos" (como se chamam os mercadinhos daqui, dominados pela massa de chineses que vive em Madrid) e saem por aí com a tal bebida em sacolinhas, via de regra carregadas por pessoas que, ao mesmo tempo que estão mega produzidas, maquiadas, penteadas, não fazem a menor cerimônia de sentar no meio da rua e beber no gargalo.
Pode ser uma visão elitista ou quadrada, mas custa sentar num barzinho e pedir um chope?
De qualquer forma, é só uma implicância (talvez um início de saudade...) boba, nada que me tire o sono. O que tem mesmo me tirado o sono são uns cheiros estranhos que às vezes rola pela minha casa (o que fica para um próximo post). Ah, e o Nadal! Ai, ai, que calor...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A gripe

Coisas de hipocondríaca: essa noite sonhei com um porquinho, e acordei com medo de ter contraído a gripe suína.
Isso porque na segunda-feira, depois de deixar minha irmã no aeroporto, resolvi tentar fazer matéria da tal epidemia daqui de Madrid. Fui até o terminal internacional e achei um vôo chegando do México. Quer dizer, eu e toda a imprensa madrilenha, que se aglomerava em torno dos passageiros. Como estava sem gravador, eu fui pra bem perto dos entrevistados para ouvi-los.
Pois bem, saí de lá feliz e contente com uma materinha na manga quando me dei conta: gente, eu fiquei muito perto desses passageiros! Ainda TOQUEI em um deles!!
Aí meu espírito hipocondríaco baixou com toda a força, e saí correndo pro banheiro pra lavar a mão um milhão de vezes.
Quando cheguei em casa de noite, depois da aula, tomei banho e coloquei toda a minha roupa pra lavar antes mesmo de entrar no quarto. huahua.
Bom, aos primeiros sintomas, eu atravesso a rua e me interno, porque tem um hospital na frente do meu prédio.
Copio aqui a matéria que fiz no dia:
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Para barrar mais casos, Espanha faz mega operação no aeroporto de Barajas
Com luvas e máscaras, policiais cadastram e revistam passageiros de voos do México, e governo pede às companhias para isolar pessoas com sintomas ainda no avião
LUISA BELCHIOR

Primeiro país europeu a confirmar um caso de gripe suína e a colocar em prática um plano de contenção da doença, a Espanha montou uma mega operação no aeroporto de Barajas, em Madrid, uma das principais portas de entrada da Europa. Até a conclusão desta edição o Ministério da Saúde espanhol informava haver 26 pessoas com suspeita de gripe suína dentro do país, além de um caso confirmado.
Em menos de dois dias, o Barajas se transformou em uma espécie de muro de contenção de possíveis casos da doença, com médicos de plantão, distribuição de folhetos para passageiros e de máscaras para todos os funcionários. Quem chega de voos do México é recebido por policiais com luvas e máscaras e submetido a um cadastramento com informações pessoais e de localização na Espanha, segundo relataram passageiros à Folha. Já os passageiros com sintomas da doença são isolados ainda no avião.
O esquema de segurança em Madrid, segundo contaram os viajantes, é mais rigoroso que o que foram submetidos no México. “Lá não tem máscaras, e, na verdade, a preocupação das pessoas é zero. Aqui o pessoal que nos recebeu e pegou nosso passaporte está de luvas e todo equipado. Pediram nosso endereço e nos deram um monte de instruções”, disse o vigilante Ivan Vásquez, 25, morador da região da Galícia que chegou na manhã de ontem do México.
O Ministério da Saúde espanhol alegou que o cadastramento se trata de “informação preventiva com o objetivo de identificar e localizar os passageiros em caso de que seja necessário”.
Ontem, o ministério informou que também pediu às companhias aéreas para que isolem passageiros que apresentem sintomas da doença em voos no território espanhol e
também informem em todos os aviões provindos de zonas com casos notificados da doença da necessidade de tomar medicamentos e consultar um médico.
“No nosso voo as aeromoças disseram que tinham umas pessoas com febre mas que já tinham sido examinadas. Mas estamos tranquilos”, contou o estudante Alejando Ortega, 22, que foi passar férias em Cancun e chegou ontem de volta à Madri.
Apesar das medidas, o clima no aeroporto de Barajas também era de tranquilidade. Na manhã de ontem, uma minoria dos funcionários trabalhava com máscara, segundo constatou a Folha em visita ao terminal 4, que recebe os voos internacionais de longa distância. O uso do aparato, segundo a assessoria de imprensa do aeroporto, é voluntário.
“Eles disseram para usar quem quisesse. Eu tenho um pouco de medo, mas não estou usando porque as aeromoças e o pessoal que trabalha perto dos aviões também não estão usando”, disse o funcionário de um balcão de informações do aeroporto.
Os folhetos sobre a gripe suína são distribuídos em duas versões: para quem viaja a “zonas afetadas pela gripe suína” e para quem chega de alguma delas. No primeiro caso, o ministério recomenda a todos os viajantes “cobrir o nariz e a boca com um pano ao tossir ou espirrar” e colocar o pano dentro de um saco plástico ao jogá-lo fora. Também pede que os passageiros não se desloquem muito se estiverem com sintomas da gripe.
O papel instrui os passageiros que regressam de áreas afetadas a monitorar o estado de saúde nos dez dias posteriores à chegada e, em qualquer suspeita, procurar um médico.
Fora do aeroporto, o governo também enviou protocolos de atuação nos casos de suspeita de gripe suína a todas as unidades públicas de saúde.
Apesar das medidas, a ministra da Saúde espanhola, Trinidad Jiménez, afirmou ontem que não há motivo para pânico.
“Neste momento não temos uma situação de emergência no nosso país, mas estamos trabalhando para nos antecipar, para atuar com prevenção sobre qualquer possível evolução dessa situação”, declarou Jiménez, em entrevista coletiva na qual anunciou o primeiro caso confirmado da doença na Europa.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

De volta

Quem sou, onde estou e para onde vou. Essa é a sensação que tenho depois de 24 intensos dias em que troquei a rotina de estudos e trabalho pela de viagem. Hoje estou sozinha pela primeira vez desde o dia 4de abril, quando meu pai e minha mãe chegaram aqui para uma viagem rumo a Portugal, Espanha, França e, principalmente, rumo a nós.
Hoje de manhã a minha irmã, que nos encontrou uma semana depois em Paris e ficou comigo em Madrid uma semana a mais, embarcou de volta pra França.
Caí no choro quando a mãoziha dela dando tchau desapareceu naquele mar de gente no aeroporto de Madrid, mas foi um choro bom, de felicidade, porque a viagem foi maravilhosa e a presença deles aqui me deu um empurrão - disse pros meus pais que eu até subi de classe social durante a estadia deles aqui. O difícil agora vai ser voltar pra classe proletária.
Bom, foram 24 dias de muita estrada, check in, conversas, risos, brigas, comida, bebida, malas e, principalmente, sonhos realizados. Vou dividir os relatos em blocos nos próximos posts. Por enquanto, uma sessão de fotos:

NA FRONTEIRA COM PORTUGAL


ALMOÇO EM PORTO


DEGUSTAÇÃO DE VINHO DO PORTO


A NOSSA CARROÇA, EM FARO, NO EXTREMO SUL DE PORTUGAL


EU E PAPI EM CÁDIZ, EXTREMO SUL DA ESPANHA, A CIDADE EUROPÉIA MAIS PRÓXIMA DA ÁFRICA


CÓRDOBA, A CAPITAL DO IMPÉRIO MOURO


NEM PRECISA DIZER ONDE


NO ALTO DA TORRE - O SONHO DA MINHA MÃE REALIZADO E UM VENTO DA P.. NA CARA


MOULIN ROUGE (Ok, tá muito turisticão, já vou mudar)


PRÓXIMA PARADA: BARCELONA!


ALMOCINHO NA MINHA VARANDA NUM PIT STOP EM MADRID


EU, BEL E A SERRA MADRILENHA

domingo, 5 de abril de 2009

Uma semana a gente estuda, a outra trabalha e na terceira tira férias...

...que bom se a nossa rotina fosse sempre assim né?
Depois de dias dedicados exclusivamente a fechar o segundo trabalho do master, entrei na semana passada com duas matérias para o Brasil engatilhadas, uma para a Vogue, que sai em junho, e outra para a Folha, que saiu hoje, sobre a reforma de lei do aborto aqui na Espanha (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0504200907.htm - mando detalhes num próximo post, para não ficar grande).
Tinha planejado uma semana tranquila, para descansar e planejar a minha viagem de Semana Santa - aqui na Europa temos dez dias sem aula nesta época.
Mas, que bom, pintou esses dois "frilas", para entregar na quinta-feira. Junto disso, fui cobrir uma feira gourmet, o que embolou o meio de campo. Resultado: pela primeira vez desde que cheguei aqui, dormi menos de 8 horas, por várias noites seguidas.
Mesmo assim, valeu a pena. Foi uma semana muito boa e produtiva, que culminou no sábado com o que foi o melhor dia da minha viagem: PAPI E MAMI CHEGARAM NA EUROPA!!! iupiiiii.
A sensação de vê-los chegando no aeroporto é indescritível! Ontem e hoje fizemos um super tour por Madrid - museus, show de flamenco, caminhadas e mais caminhadas, praças, compras e etc. Eles adoraram, eu também, e até voltei a me sentir turista (o que quer dizer que admitir voltar a fazer umas comprinhas por aí...). Amanhã começamos uma viagem de carro.
Enquanto isso, segue uma fotinho dos dois por aqui, em frente ao Marco Zero de Madrid:

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O despertar no metrô


"Despertar é renascer a cada dia"
Esta é a primeira frase de um poema com o qual eu topei nesta tarde quando estava no metrô - que tem em quase todos os carros cartazes com textos, contos ou o início de algum livro para estimular a leitura dos viajantes.
"Despertar é entrar em um sonho que já está em andamento"
Estas frases me disseram tanto que, antes de terminar o poema, puxei meu bloquinho da bolsa e tratei de anotar o nome para encontrá-lo depois. Estas frases me disseram do prazer de desperdar para a vida, para o presente que está aí todos os dias tentando nos dizer da maravilha de existir, de estar aqui em corpo e alma, para a batalha que já começou e está longe de terminar, mas sobretudo para criar, passo a passo, a nossa própria história, e, assim, só assim, construir nossa liberdade, nosso sentido de vida.
Reproduzo aqui o poema, de uma poeta espanhola que eu não conhecia, Maria Zambrano.
Em seguida, uma tradução livre:

Despertar es renacer cada día. Y ya la luz nos aguarda.
Ya está ahí comenzada, la historia que haya de proseguir.
Despertar es entrar en un sueño ya en marcha,
Venir desde el desierto puro del olvido y entrar, lo primero,
En nuestro propio cuerpo, recordarlo sin rencor,
Entrar a habitarlo y recuperar nuestra alma, con su memoria,
Y, nuestra vida, con su quehacer.
Entrar como en un capullo tejido por innumerables gusanos afanosos;
Retomar nuestro hilo en el capullo fabricado incasablemente por el gusano-hombre,
Hacedor de ensueños que se objetivan, fabricador de historia.

María Zambrano

EM PORTUGUÊS (TRADUÇÃO LIVRE):
Despertar é renascer a cada dia. E a luz já nos aguarda.
Ja está aí começada, a história que há de prosseguir.
Despertar é entrar em um sonho já em andamento,
Vir desde o deserto puro do esquecimento e entrar, primeiro,
no nosso próprio corpo, recordá-lo sem rancor,
Entrar a habitá-lo e recuperar nossa alma, com a sua memória,
E a nossa vida, com a sua ocupação.
Entrar como em um casulo tecido por inúmeras larvas que trabalham;
Retomar o nosso fio no casulo fabricado incasavelmente pelo homem-larva,
Creador de sonhos (ou fantasias) que se objetivam, fabricante de histórias.

sábado, 28 de março de 2009

Cuenca e os moinhos de vento


O novo e o antigo me encaram freqüentemente aqui na Espanha. A começar pela vista da minha varanda, onde uma igreja renascentista divide espaço com um mirador meio futurista (e meio brega, diga-se).
Mas isso me ocorreu na volta de uma viagem de ônibus que fiz a Cuenca, uma cidadezinha a duas horas de Madrid, na região de Castilla-La Mancha, no feriado que tivemos quinta passada.
Um moinho de vento que só fazia me lembrar a Dom Quixote (e ao resturante Cervantes de Copa hmmmm) deu lugar, alguns quilômetros depois, aos gigantescos moinhos geradores de energia eólica.
Não sei qual teve o maior impacto sobre mim: se o moinho antigo e solitário fincado em um pueblo (povoado) no meio de um descampado de Castilla-La Mancha, que me lembrava das lições de Dom Quixote, como a de viver seus sonhos, criar sua própria realidade, conquistar sua liberdade com o esforço do dia-a-dia, enxergar o melhor nas pessoas, etc. Ou se os moinhos brancos gigantes e enfileirados, onipotentes, nobres, que me apontavam o novo mundo, as novas possibilidades, as alternativas viáveis, etc.
Apesar de tão diferentes, os dois lados estão sempre ali, e não falo só dos moinhos: também do restaurante galego super tradicional que almocei hoje vizinho à cafeteria contemporânea do museu Reina Sofia, onde comi a sobremesa; do centro antigo de Madrid que fica em frente à parte nova da cidade, cheia de arranha-céus; das aulas de doutorado em Grécia Antiga que acontecem na sala ao lado da especialização em novas fontes de energia; do bairro tradicional de Chamberí perto do super moderno Chueca, e por aí vai.
É como se todos me dissessem que está tudo integrado, como as casas da cidade de Cuenca, construídas sobre, sob e entre as rochas características daquele povoado.
É como se me dissessem para nunca esquecer o passado maravilhoso e os passos do futuro, enquanto desfrutamos do caminho do presente.
Agradeci, fechei os olhos e acordei em Madrid. Um presente.
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Agora, as fotos de Cuenca!

Cuenca é uma cidadezinha pequena - tão pequena que chegamos lá as 14h e adiantamos nossa volta das 20h pras 18h porque já tínhamos visto tudo huaahuahuahau -no meio de rochas. Tem os prédios cheios de cores fortes, ao contrário da maioria das cidades monocromáticas da Espanha. Aqui, alguns desses prédios na Plaza Mayor:


Aliane e José e a igreja da Plaza Mayor:

Vista geral da cidade:


Uma casa tão integrada às rochas que se confunde com elas:


Eu em frente à casa "colgada", que parece estar pendurada nas rochas:

Ó eu aqui mãe!

domingo, 22 de março de 2009

É primavera

A primavera chegou oficialmente ontem aqui na Europa, mas, como já contei, há umas boas semanas que as temperaturas estão cada vez mais amenas e o sol, cada vez mais forte.
Como ficar lendo coisas sobre o clima é chato,segue uma sessão de fotos do picnic que fiz hoje com a Paz e os amigos dela neste domingo e, em seguida, do almoço na varanda de casa domingo passado:
Fizemos o picnic no jardim do Templo de Debod, um templo egípcio dado à Espanha na década de 70 por agradecimento à ajuda em uma busca arqueológica no Egito
O picnic é um programa muito comum por aqui quando o sol começa a sair. Minha tia que morou em Nova York disse que o mesmo passa por lá. As pessoas levam pros parques um monte de comida e bebida - que, no caso da Espanha, costuma ser tortillas e saladas feitas em casa, empanadas de atum (um pastel de forno) ou sanduíches de lula ou presunto ibérico comprados pela rua. Colocam uma toalha ou nem isso na grama e fazem uma bela farofada.
Um delicioso almoço de domingo na varanda...
...que se transformou em show de flamenco...
...e, logo, em festinha com música e vinho.

Amanhã conto e mostro fotos da viagem que fiz na quinta-feira.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Pulgas em Madrid

Não, não entrou pulga no meu quarto e menos ainda passei perto de algum vira-lata. O título se refere ao El Rastro, o mercado de pulgas de Madrid e tema da minha primeira matéria como free lance daqui de Madrid. O link para ela é esse:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/vitrine/vi0703200904.htm, mas reproduzo aqui o texto na íntegra e com fotos, que seguem abaixo intercaladas com a matéria.

MERCADO DE RUA ESPANHOL GANHA FORÇA COM CRISE
Criado no século 15, El Rastro baixa preços dos artigos, que vão de sino de bronze a blusas da Zara de segunda mão a 1 euro

LUISA BELCHIOR
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE MADRI
Se viajar em tempos de crise é um desafio aos bolsos, voltar para casa de sacolas cheias pode não ser tão penoso. Ao menos para quem estiver disposto a garimpar. Na Espanha, o país da zona do euro mais atingido pela crise, segundo a União Européia, o mercado de pulgas medieval El Rastro, um dos mais famosos e antigos do velho continente, também apertou o cinto e baixou ainda mais os preços de seus artigos _que vão de roupas de marca de segunda mão aos mais variados objetos de antiguidade.
A tarefa não é fácil, porque o mercado, criado no século 15 se traduz hoje em cerca de 1.200 comerciantes, segundo a associação de vendedores Rastro, que, todos os domingos e feriados, montam barracas nas ruas do bairro da La Latina, em uma zona onde funcionavam matadouros.
Soma-se a isso a as pouco mais de cem mil pessoas que, alheias às liquidações de inverno das lojas espanholas a poucas quadras dali, circulam pelo mercado a céu aberto a cada edição, de acordo com a prefeitura de Madrid.

A reportagem se juntou a essa multidão e descobriu como encher a sacola de boas compras, que não ultrapassaram os 35 euros e chegam a 1 euro, por artigo.
O roteiro tradicional pelo Rastro começa na saída da estação de metrô La Latina, onde o mercado medieval ainda é eminentemente turístico. Mesmo assim, já dá para fazer boas garimpadas por ali. Na rua Mandonadas, a primeira depois da saída do metrô, há chapéus charmosos, customizados ou com lacinhos, a 10 euros e casacos de couro a 25 euros.
No fim da rua, que desemboca na praça de Cascorro, um barraqueiro vende conjuntos charmosos de gorros com cachecol ou luvas, todos de linha, a 5 euros. Foi a melhor relação custo-benefício deste tipo de produto encontrada na feira pela reportagem.
O que se cobra por luvas e cachecóis por ali, contudo, não são muito diferentes dos de lojas ao redor da Puerta del Sol, o centrão turístico de Madri, além de a qualidade ser pior. Para esses itens, os melhores negócios estão em lojas de acessórios instaladas dentro das estações de metrô da cidade.
Mas os preços vão baixando conforme se desce a rua Ribera de Curtidores, a principal do Rastro e transversal à Mandonadas. Por lá, já se encontra uma jaqueta de couro a 15 euros, casacões de lã e algodão a 10 euros, meias estampadas a 4 euros (o par) e pashminas a 2 euros. Estas últimas, expostas em uma das barracas mais disputadas na feira, custavam 5 euros no último verão europeu, “até chegar a crise”, conta o vendedor Sarget Gasseh, 32.

Já os casacões, apesar da qualidade inferior aos de lojas de Madri _a maioria tem menos de 50% de lã na composição, contra uma média de 60% que as etiquetas de marca afirmam ter_, custam no Rastro menos da metade do preço praticado nas “rebajas”, as liquidações espanholas.
Na Zara, por exemplo, uma peça em lã com poliéster não sai por menos de 59 euros. E, embora as marcas espanholas ainda não tenham divulgado um balanço das vendas neste inverno, a queda nas vendas já é visível, segundo contou à reportagem a gerente da Mango Isabel Muñoz.
“Ninguém está comprando como antes. No ano passado, elas [clientes] gastavam como loucas. Agora, compram só o que realmente precisam”.
Já no Rastro, o ápice dos efeitos da crise se mostra em uma barraca de roupas de segunda mão. Por 1 euro, vende-se casacos e blusas usadas de marcas como Zara, Sfera e Mango, dispostas em uma pilha intensamente remexida pela multidão que costuma cercar o ponto.
“Muitas meninas de Madri só se vestem no El Rastro. É muita diferença, aqui a gente paga 1 euro em uma blusa, isso é incomparável”, conta a brasileira Amanda Marques, 22. Ela é a comerciante Rita Rodrigues, 46, que vivem nas redondezas de Madri, contaram que atravessam a cidade para comprar no mercado medieval.

Depois do banho de roupas, é no fim da Ribera de Curtidores que o mercado mostra seu lado mais tradicional, já desvelado aos poucos nas ruelas transversais. Ainda na Ribeira de Curtidores, há facas de 6 a 10 euros e castanholas a 5 euros o par.
Nas ruelas e praças no entorno da via, colecionadores e vendedores de antiguidades estão mais dispostos a pechinchas. Na rua de Carlos Arniches, por exemplo, há achados como maletas de couro entre 20 e 35 euros (dependendo do tamanho) e um sino em bronze com ilustrações do clássico espanhol “Dom Quixote” (Miguel de Cervantes) por 12 euros.
Por ali, é possível também recarregar as energias com poucos euros e preços congelados mesmo com a crise. O disputado El Capricho Extremeño oferece sanduíches de toda a sorte de sabores – como salmão defumado, presunto ibérico e camarões – por preços que vão de 2 euros a 3,50 euros, os mesmos praticados no último verão europeu.

Como quase tudo no Rastro, porém, é preciso não se importar com filas e multidões para comer ali. Também é importante ficar de olho nas bolsas, porque nessa parte da feira os “batedores de carteira” são mais frequentes, segundo a prefeitura de Madrid.
“Os meus fornecedores aumentaram os preços, mas eu não repassei isso aos clientes. Prefiro ganhar menos e não perdê-los. Temos que nos adequar à crise”, diz Manuela Gonzalez, proprietária do restaurante.
Pelo visto, o Rastro está tirando bom proveito dela. E os consumidores também.
Serviço
- Como chegar:
De metrô: paradas La Latina e Puerta de Toledo (ambas da linha 5), Tirso de Molina (linha 1) ou Embajadores (linha 3).
De ônibus: linhas 16, 33, 35, 41, 60, 148 e Circular.
- Horário: domingos e feriados de 9h as 15h.