quinta-feira, 2 de abril de 2009

O despertar no metrô


"Despertar é renascer a cada dia"
Esta é a primeira frase de um poema com o qual eu topei nesta tarde quando estava no metrô - que tem em quase todos os carros cartazes com textos, contos ou o início de algum livro para estimular a leitura dos viajantes.
"Despertar é entrar em um sonho que já está em andamento"
Estas frases me disseram tanto que, antes de terminar o poema, puxei meu bloquinho da bolsa e tratei de anotar o nome para encontrá-lo depois. Estas frases me disseram do prazer de desperdar para a vida, para o presente que está aí todos os dias tentando nos dizer da maravilha de existir, de estar aqui em corpo e alma, para a batalha que já começou e está longe de terminar, mas sobretudo para criar, passo a passo, a nossa própria história, e, assim, só assim, construir nossa liberdade, nosso sentido de vida.
Reproduzo aqui o poema, de uma poeta espanhola que eu não conhecia, Maria Zambrano.
Em seguida, uma tradução livre:

Despertar es renacer cada día. Y ya la luz nos aguarda.
Ya está ahí comenzada, la historia que haya de proseguir.
Despertar es entrar en un sueño ya en marcha,
Venir desde el desierto puro del olvido y entrar, lo primero,
En nuestro propio cuerpo, recordarlo sin rencor,
Entrar a habitarlo y recuperar nuestra alma, con su memoria,
Y, nuestra vida, con su quehacer.
Entrar como en un capullo tejido por innumerables gusanos afanosos;
Retomar nuestro hilo en el capullo fabricado incasablemente por el gusano-hombre,
Hacedor de ensueños que se objetivan, fabricador de historia.

María Zambrano

EM PORTUGUÊS (TRADUÇÃO LIVRE):
Despertar é renascer a cada dia. E a luz já nos aguarda.
Ja está aí começada, a história que há de prosseguir.
Despertar é entrar em um sonho já em andamento,
Vir desde o deserto puro do esquecimento e entrar, primeiro,
no nosso próprio corpo, recordá-lo sem rancor,
Entrar a habitá-lo e recuperar nossa alma, com a sua memória,
E a nossa vida, com a sua ocupação.
Entrar como em um casulo tecido por inúmeras larvas que trabalham;
Retomar o nosso fio no casulo fabricado incasavelmente pelo homem-larva,
Creador de sonhos (ou fantasias) que se objetivam, fabricante de histórias.

2 comentários:

Marcelo Alves disse...

Interessante essa história de textos no metrô. Deve ser louvado um país que tenta estimular a leitura.

Ivan disse...

Pra registrar:

"Há que fazer voltar à matéria primitiva/ essa imundície E que, na torpitude de existir-se,/ao menos possa haver/ as alegrias ingénuas de todo recomeço."

Jorge de Sena.

(beijos)