Sem sal.
Sem qualquer bossa, sem um quê
Que faz do atleta um campeão, do professor um mestre,
Do encontro uma benção, do momento a eternidade.
Uma festa sem música, uma orquestra em silêncio,
Uma palavra sem sentido, um belo filme sem emoção.
O óbvio, mas não o sublime. O correto, mas não a paixão.
Sem sal.
Sem sol, mas também sem tempestade. Uma chuva fina.
Sem o êxtase, sem ir ao limite até que se esteja
Sem fôlego. Sem o suspiro. Um grito vazio. O grito
Sem explosão, sem a conquista sofrida.
Sem o abraço apertado. Um choro calado.
Sem inspiração, sem ação
Sem sentido.
sábado, 23 de agosto de 2008
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Portas entreabertas

Sou só eu ou os espaços realmente ficaram menores; as portas, menos abertas?
Sou só eu ou tá por aí aquela sensação de que "eu não sou daqui" em todos os lugares, em tudo que é porta entreaberta, que me parece cada vez mais fechada?
Eu saí de uma porta (ou ela se fechou pra mim) para, enfim, explorar os mundos por detrás das portas que se mostravam tão abertas quando eu espiava da minha janela.
Mas por que agora eu tenho a sensação de que estou no corredor, em uma espera permanente, assistindo aos feixes de luz diminuírem?
Sou eu que hesito em empurrá-las pra descobrir, quem sabe, que pode que o vento as encostou?
Sou só eu ou mundo parece cada vez mais um grande corredor, um não-lugar de portas entreabertas, mas já quase fechadas?
sexta-feira, 14 de março de 2008
Agatha
Era como se as mãozinhas ainda estivessem ali, pressionando os botões do controle remoto do videogame, partindo as bolachas do lanche da tarde, tocando, tênues, para ver o que gritavam os vizinhos, a cortina branca agora furada pelas marcas de tiros, que também cravaram a parede e, para sempre, a vida daquele homem.
Desesperadamente calmo -talvez um dos piores desesperos-, sujo de sangue, de suor, de poieira e dessa humanidade perdida, ele se posiciona no exato lugar onde, horas antes, sua filha foi baleada, para mostrar sua tese de onde vinham os tiros, para contar os detalhes, as minúcias que cruelmente buscamos, daquela história -mais uma- aos que estávamos lá para conhecê-la in loco.
Era um desespero silencioso o daquele homem, cruelmente silencioso. Porque ele não gritava: falava baixo, até. Contava calmamente a história, pouco chorava.
De repente ele rompe a dor anestesida e, desviando das poças e marcas de sangue, joga no sofá, um a um e em cima das gotas de sangue, os livros escolares que as mãozinhas estavam a dias de começar a carregar. E pergunta, como que tentando desviar do problema central, o que fará agora com todos aqueles livros escolares novinhos que acabara de comprar. Ninguém sabe, ninguém ousa responder. É um desespero que cala fundo, é quase visível naquele vácuo de palavras, contidas por respeito às lágrimas do homem, que agora não mais se contêm.
Me viro para respeitar aquele momento. Olho para o chão, depois para a janela. E ali vai a pipa no céu azul, as roupas penduradas no varal. A tranqüilidade fajuta de uma tarde de sol forjadamente quieta, porque foi uma tarde que precedeu uma manhã estupidamente violenta.
Saio pela varanda da casa, onde uma poça de sangue descansa cruel embaixo de um biquini pendurado no varal e marcando território entre as pessoas ali sentadas sobre a revolta da dor e, mais ainda, sobre a revolta da sensação de impotência. Os olhos dessas pessoas denunciam isso, gritam isso.
Tudo está em estado de espera, é como se o próprio cenário não acreditasse que perdeu sua protagonista. Toda a casa estava decorada com o desespero silencioso do pai e a revolta dos olhos dos parentes: as paredes descacadas e afundadas com as marcas de tiros, o prato com pedaços de biscoito e o achocolatado derramado e o controle do videogame ainda pendurado na televisão, sob um quadro com a foto de Agatha posando e sorrindo, maquiada, produzida.
"Talvez era a princesinha da família", penso. A princesa que, como diz a música que toca no rádio do carro que me levou dali, aquele homem quis coroar, a princesa que sumiu no mundo sem lhe avisar -e talvez aquele homem esteja mesmo se perguntado o que a vida agora lhe fará.
Porque, assim, de um frame para outro, aquelas mãozinhas que há pouco pressionavam o controle do videogame que a menina jogava no seu último dia de férias descansam sobre uma maca fria do hospital. E viraram mais um número, talvez mais uma contabilidade dos "autos de resistência" da cidade, que não cessam de ser protagonistas nos aumentos percentuais de crimes a cada trimestre.
Virou um número, em vez de história. A história de Ágatha: Agatha fazia natação. Agatha queria ser veterinária. Agatha era alta. Agatha completara 11 anos há dias. Agatha estava no último dia de férias, que passava na casa do pai. Agatha disse: pai, pai, meu braço, depois de ser atingida por uma bala perdida dentro de casa e antes de morrer, nos braços do pai.
Agatha virou um número para a maioria de nós. Não para mim.
Desesperadamente calmo -talvez um dos piores desesperos-, sujo de sangue, de suor, de poieira e dessa humanidade perdida, ele se posiciona no exato lugar onde, horas antes, sua filha foi baleada, para mostrar sua tese de onde vinham os tiros, para contar os detalhes, as minúcias que cruelmente buscamos, daquela história -mais uma- aos que estávamos lá para conhecê-la in loco.
Era um desespero silencioso o daquele homem, cruelmente silencioso. Porque ele não gritava: falava baixo, até. Contava calmamente a história, pouco chorava.
De repente ele rompe a dor anestesida e, desviando das poças e marcas de sangue, joga no sofá, um a um e em cima das gotas de sangue, os livros escolares que as mãozinhas estavam a dias de começar a carregar. E pergunta, como que tentando desviar do problema central, o que fará agora com todos aqueles livros escolares novinhos que acabara de comprar. Ninguém sabe, ninguém ousa responder. É um desespero que cala fundo, é quase visível naquele vácuo de palavras, contidas por respeito às lágrimas do homem, que agora não mais se contêm.
Me viro para respeitar aquele momento. Olho para o chão, depois para a janela. E ali vai a pipa no céu azul, as roupas penduradas no varal. A tranqüilidade fajuta de uma tarde de sol forjadamente quieta, porque foi uma tarde que precedeu uma manhã estupidamente violenta.
Saio pela varanda da casa, onde uma poça de sangue descansa cruel embaixo de um biquini pendurado no varal e marcando território entre as pessoas ali sentadas sobre a revolta da dor e, mais ainda, sobre a revolta da sensação de impotência. Os olhos dessas pessoas denunciam isso, gritam isso.
Tudo está em estado de espera, é como se o próprio cenário não acreditasse que perdeu sua protagonista. Toda a casa estava decorada com o desespero silencioso do pai e a revolta dos olhos dos parentes: as paredes descacadas e afundadas com as marcas de tiros, o prato com pedaços de biscoito e o achocolatado derramado e o controle do videogame ainda pendurado na televisão, sob um quadro com a foto de Agatha posando e sorrindo, maquiada, produzida.
"Talvez era a princesinha da família", penso. A princesa que, como diz a música que toca no rádio do carro que me levou dali, aquele homem quis coroar, a princesa que sumiu no mundo sem lhe avisar -e talvez aquele homem esteja mesmo se perguntado o que a vida agora lhe fará.
Porque, assim, de um frame para outro, aquelas mãozinhas que há pouco pressionavam o controle do videogame que a menina jogava no seu último dia de férias descansam sobre uma maca fria do hospital. E viraram mais um número, talvez mais uma contabilidade dos "autos de resistência" da cidade, que não cessam de ser protagonistas nos aumentos percentuais de crimes a cada trimestre.
Virou um número, em vez de história. A história de Ágatha: Agatha fazia natação. Agatha queria ser veterinária. Agatha era alta. Agatha completara 11 anos há dias. Agatha estava no último dia de férias, que passava na casa do pai. Agatha disse: pai, pai, meu braço, depois de ser atingida por uma bala perdida dentro de casa e antes de morrer, nos braços do pai.
Agatha virou um número para a maioria de nós. Não para mim.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
ESCRITOS DE VIAGEM 1 - "...E se encontraram num sentimento humano"
Aconteceu durante uma suchá, uma espécie de debate entre judeus e palestinos. Lá estavam os dois homens, tão iguais, tão diferentes, disparando argumentos sólidos, discutindo a velha e cansada discussão de sempre. De quem é a terra, de quem é o Deus, de quem é a razão. Eram duas almas perdidas no mundo alheio, cada qual no caminho que lhe convinha, cada qual com sua venda, tateando nada mais que seus próprios mundos já tão pequenos, como é de praxe.
Quem presenciou aquele momento até então diria que é mentira: como pode esses dois homens tão cheios de suas certezas, suas raízes e seus povos, se abraçarem, se renderem um ao outro? Como pode, se havia um muro entre eles?
Mas se abraçaram.
Se abraçaram quando descobriram que ambos tiveram seus filhos mortos em um dos tantos confrontos, que já são meros registros, em vez de histórias. Os dois experimentaram o que dizem ser uma das piores dores do mundo, essa de ter que ver o filho morrer, numa inversão tão ilógica e cruel do rumo que o ser humano foi preparado para seguir.
E ao perceber a mesma dor um no outro, os dois desfizeram-se da venda que os cegava e os definia em caminhos paralelos. E choraram, e se abraçaram. "E se encontraram num sentimento humano", contou o interlocutor.
Quem presenciou aquele momento até então diria que é mentira: como pode esses dois homens tão cheios de suas certezas, suas raízes e seus povos, se abraçarem, se renderem um ao outro? Como pode, se havia um muro entre eles?
Mas se abraçaram.
Se abraçaram quando descobriram que ambos tiveram seus filhos mortos em um dos tantos confrontos, que já são meros registros, em vez de histórias. Os dois experimentaram o que dizem ser uma das piores dores do mundo, essa de ter que ver o filho morrer, numa inversão tão ilógica e cruel do rumo que o ser humano foi preparado para seguir.
E ao perceber a mesma dor um no outro, os dois desfizeram-se da venda que os cegava e os definia em caminhos paralelos. E choraram, e se abraçaram. "E se encontraram num sentimento humano", contou o interlocutor.
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
Feliz Natal
Hoje sentei ocasionalmente em frente à árvore de Natal da minha vó, depois do "enterro dos ossos". Como poucas vezes, vi as luzinhas, os enfeites da árvore. Vi as histórias dela. E me deu saudade, de hoje...
Minha vó passou e disse: Luluca, não quer assistir à TV?
Disse: Não, vó, tô assistindo à árvore de Natal.
Minha vó passou e disse: Luluca, não quer assistir à TV?
Disse: Não, vó, tô assistindo à árvore de Natal.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Como se houvesse amanhã
Amanhã eu ponho o pé no mundo
Sim,
Amanhã eu me jogo, me arrisco
mudo a cama de lugar
Que maravilha será mudar!
Vou mudar
Amanhã vou sair pra dançar
(ao contrário de hoje)
vou ser até um pouco louca
Vou ao teatro, vou ver a cidade
vou beber aquele vinho
e escolher outro prato do cardápio,
enfim
Talvez até faça uma tatuagem
e, quem sabe,
marque um vôo de asa delta
Tá decidido,
Vou mudar! mas amanhã
hoje estou cansada
e dá licença,
Que estou ocupada pensando em amanhã.
Sim,
Amanhã eu me jogo, me arrisco
mudo a cama de lugar
Que maravilha será mudar!
Vou mudar
Amanhã vou sair pra dançar
(ao contrário de hoje)
vou ser até um pouco louca
Vou ao teatro, vou ver a cidade
vou beber aquele vinho
e escolher outro prato do cardápio,
enfim
Talvez até faça uma tatuagem
e, quem sabe,
marque um vôo de asa delta
Tá decidido,
Vou mudar! mas amanhã
hoje estou cansada
e dá licença,
Que estou ocupada pensando em amanhã.
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
Maria e o caminho
Ela se chama Maria, como tantas outras, que, também como ela, caminham com o único objetivo de chegar "lá". Caminham com passos sofridos, olhos no horizonte, vergonha das vezes em que querem parar para descansar.
Maria caminha para chegar, ainda que não tenha a mais vaga idéia dos rumos de sua peregrinação.
- Eu sei que vou chegar lá.
- Lá aonde Maria?
Maria não responde. É que as Marias não percebemos que não há "lá", ou melhor, há sim: mas o "lá" é aqui. É neste caminho que a vida acontece, Maria. É em cada passo que a vida se faz, se cria, toma a forma que esculpimos com nossos pés. Seus passos não te levam a nada, eles tão simplesmente levam a ti mesmo. Cada passo é tão valioso, Maria, não percebe? Não percebe a maravilha que é poder dar um passo, e outro, e outro? E a delícia de dar as mãos com estes aqui do lado.
Do lado?
Maria poucas vezes olha para o lado. Daí ela não perceber os pós de ouro, as margaridas brancas, a água cristalina e a grama reluzente que margeiam seu caminho e a acompanham em uma estrada sem fim. Não percebe as canções, nem quem as canta, quem ri, quem chora.
É que não há tempo, pensa Maria. Se olham para os lados, as Marias acham que vão se perder, e não vão chegar lá, e vão se decepcionar.
Mas as Marias, humanas que são, se cansam. E querem parar para descansar. E descansam, o cansaço vazio, e se sentam sobre a incógnita e o medo de para sempre ficarem ali sentadas, fracas que se acham, ante aquela multidão que caminha sem parar para chegar "lá".
Mas Maria, querida, você, com tua força que você cisma em ignorar, já chegou há muito tempo "lá". Chegou no momento em que nasceu.
Maria caminha para chegar, ainda que não tenha a mais vaga idéia dos rumos de sua peregrinação.
- Eu sei que vou chegar lá.
- Lá aonde Maria?
Maria não responde. É que as Marias não percebemos que não há "lá", ou melhor, há sim: mas o "lá" é aqui. É neste caminho que a vida acontece, Maria. É em cada passo que a vida se faz, se cria, toma a forma que esculpimos com nossos pés. Seus passos não te levam a nada, eles tão simplesmente levam a ti mesmo. Cada passo é tão valioso, Maria, não percebe? Não percebe a maravilha que é poder dar um passo, e outro, e outro? E a delícia de dar as mãos com estes aqui do lado.
Do lado?
Maria poucas vezes olha para o lado. Daí ela não perceber os pós de ouro, as margaridas brancas, a água cristalina e a grama reluzente que margeiam seu caminho e a acompanham em uma estrada sem fim. Não percebe as canções, nem quem as canta, quem ri, quem chora.
É que não há tempo, pensa Maria. Se olham para os lados, as Marias acham que vão se perder, e não vão chegar lá, e vão se decepcionar.
Mas as Marias, humanas que são, se cansam. E querem parar para descansar. E descansam, o cansaço vazio, e se sentam sobre a incógnita e o medo de para sempre ficarem ali sentadas, fracas que se acham, ante aquela multidão que caminha sem parar para chegar "lá".
Mas Maria, querida, você, com tua força que você cisma em ignorar, já chegou há muito tempo "lá". Chegou no momento em que nasceu.
terça-feira, 29 de maio de 2007
Entre "
Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo.
Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito.
Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos.
Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade.
Este olhar é o da alma.
A Alma Imoral, Nilton Bonder.
sábado, 26 de maio de 2007
A caixinha
Daquela pequena caixinha sairam distantes lembranças das mútuas entregas, do romance avassalador e de pequenos carinhos como aquele, o da pequena caixinha que aquelas mãos delicadas confeccionaram, num dia de paixão florescida, num dia que ficou fotografado na eternidade, ou ao menos enquanto durasse aquela caixinha. Eram pequenas fotos, eram colagens românticas, era um mimo que ela, com tanto entusiasmo, entregou àquelas mãos grandes e fortes. Era muito mais do que isso...
Daquela pequena caixinha saiu a resposta que ele procurava há semanas, talvez meses. É isso, disse de si para si, não mais contendo as lágrimas que até então apertavam um nó forte na garganta. É isso que não temos mais, lamentou, disso que sentia tanta falta, talvez por isso o brilho da sua áura, sempre estonteante, estivesse, pouquinho a pouquinho, perdendo a força.
Agora, se debulhava cada vez que lembrava do momento em que, envolto em dúvidas e questionamentos, sua mãe lhe entregara uma caixinha perdida entre tantos outros objetos da casa, e note, podiam ser estes tantos outros, mas foi justo a caixinha que a mãe trouxe nas mãos, dando-lhe ao mesmo tempo - talves sem saber, talvez sabendo, talvez seguindo o sexto sentido maternal - uma direção naquele caminho que lhe era difícil percorrer.
E a falta que sentia de tudo aquilo, a saudade de quando eram eles, de quando a viu, daquela festa em que o tão esperado beijo aconteceu, tudo isso saltou da caixinha como se estivesse preso em uma mola, tensionado pela pressão da tampa. E também pelas preocupações do dia-a-dia, pelo operacional daquela rotina exigida pela criança agora entre os dois. O romance acabou, pensou. Acabou?
Agora lhe restava a dúvida se o casual (?) encontro com a caixinha era um alento para reanimar este lindo romance, que gerou um fruto mais bonito ainda, ou se eram apenas lembranças de uma época que não voltará, memórias para se guardar numa caixinha, afinal. A certeza é que a caixinha, cada vez que aberta, até o fim desta vida, ou no início de outras, o premiará com pingos de uma história, conta-gotas da eternidade, de toda a eternidade que cabe dentro daquela pequena caixinha.
Daquela pequena caixinha saiu a resposta que ele procurava há semanas, talvez meses. É isso, disse de si para si, não mais contendo as lágrimas que até então apertavam um nó forte na garganta. É isso que não temos mais, lamentou, disso que sentia tanta falta, talvez por isso o brilho da sua áura, sempre estonteante, estivesse, pouquinho a pouquinho, perdendo a força.
Agora, se debulhava cada vez que lembrava do momento em que, envolto em dúvidas e questionamentos, sua mãe lhe entregara uma caixinha perdida entre tantos outros objetos da casa, e note, podiam ser estes tantos outros, mas foi justo a caixinha que a mãe trouxe nas mãos, dando-lhe ao mesmo tempo - talves sem saber, talvez sabendo, talvez seguindo o sexto sentido maternal - uma direção naquele caminho que lhe era difícil percorrer.
E a falta que sentia de tudo aquilo, a saudade de quando eram eles, de quando a viu, daquela festa em que o tão esperado beijo aconteceu, tudo isso saltou da caixinha como se estivesse preso em uma mola, tensionado pela pressão da tampa. E também pelas preocupações do dia-a-dia, pelo operacional daquela rotina exigida pela criança agora entre os dois. O romance acabou, pensou. Acabou?
Agora lhe restava a dúvida se o casual (?) encontro com a caixinha era um alento para reanimar este lindo romance, que gerou um fruto mais bonito ainda, ou se eram apenas lembranças de uma época que não voltará, memórias para se guardar numa caixinha, afinal. A certeza é que a caixinha, cada vez que aberta, até o fim desta vida, ou no início de outras, o premiará com pingos de uma história, conta-gotas da eternidade, de toda a eternidade que cabe dentro daquela pequena caixinha.
terça-feira, 15 de maio de 2007
Novo velho mundo
Tenho flagrados pensamentos, em pequena, de que tudo já estava pronto quando cheguei aqui. Prédios, ruas, hospitais, tudo o que via da janela do carro. Nada mais a construir.
E hoje, mesmo depois de ter testemunhado um mundo feito tão antes da minha chegada, nove séculos antes até, são insistentes as imagens de novas construções que, tijolo a tijolo, foram substituindo aqueles pensamentos de criança, esta que agora vê, além das coisas prontas, aquelas que se erguem sem limites. E insólitas, porém, e perdidas, porém, e sem rumo nem por que.
E vão formando um novo pensamento, de que se tem formado por aí um novo velho mundo, este mundo onde as novas coisas feitas sem propósito e mesmo assim com muita pressa se apertam - ou apertam - entre os própositos das velhas e lentas coisas, que, embora em ruínas, ainda mostram seus simbolismos, suas histórias, talvez sangue, talvez glórias, este mundo onde "tudo ainda é construção e já é ruína".
E hoje, mesmo depois de ter testemunhado um mundo feito tão antes da minha chegada, nove séculos antes até, são insistentes as imagens de novas construções que, tijolo a tijolo, foram substituindo aqueles pensamentos de criança, esta que agora vê, além das coisas prontas, aquelas que se erguem sem limites. E insólitas, porém, e perdidas, porém, e sem rumo nem por que.
E vão formando um novo pensamento, de que se tem formado por aí um novo velho mundo, este mundo onde as novas coisas feitas sem propósito e mesmo assim com muita pressa se apertam - ou apertam - entre os própositos das velhas e lentas coisas, que, embora em ruínas, ainda mostram seus simbolismos, suas histórias, talvez sangue, talvez glórias, este mundo onde "tudo ainda é construção e já é ruína".
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