sábado, 28 de novembro de 2009

O retorno

Depois de dois cansativos mas ótimos meses em casa e uma semana maravilhosa em Paris com minha sister, voltei a Madrid para uma segunda temporada.
Apesar das dificuldades - leia-se o frio e a conta bancária magrinha - estou bem feliz de estar por aqui de novo, e animada para os novos capítulos deste blog, que também tirou férias mas agora volta ao batente.
O fio condutor desta nova temporada é um doutorado em Migrações Internacionais, que comecei no dia que pisei na Espanha - o mesmo, by the way, que assinei o contrato do novo apartamento.
Por enquanto, como de costume, deixo algumas fotos desses primeiros dias. E convido a todos a novamente me acompanharem aqui nos próximos meses e, de novo, me fazerem sentir mais perto de vocês!


Jantar de boas vindas das minhas queridas amigas madrilenhas e latinas, que deram outra cor pra minha estadia aqui.


Na Eurodisney com Bel.

domingo, 13 de setembro de 2009

27

Há um ano fiz 26 anos e escrevi sobre a sensação de estar presa a um "eterno intervalo de tempo", sobre a vontade de "ver no meu retrato as mudanças que não passarão desapercebidas". Há nove meses embarquei em uma viagem para, sobretudo, buscar essas mundanças. Hoje eu fiz 27 anos e voltei pra casa com uma sensação deliciosa de olhar para trás e ver as minhas pegadas em um caminho que pode ser que tenha sido torto, com mais curvas do que a rota inicial, mas um caminho que eu mesma construí.
Pode não ter sido um caminho longo - quiçá não percorri mais que o trecho inicial - mas foi grande o suficiente para acolher uma imensidão de experiências: fiz lindas amizades, estudei países que nunca tinha ouvido falar, escrevi sobre eles, escrevi sobre um mercado de pulgas, sobre o aborto, sobre as Olimpíadas, sobre moda e arte, sobre bolinhos confeitados, a gripe suína e a imigração. Trabalhei, entrevistei e fui entrevistada, vi o Rei, vi o Rafa Nadal, vi imigrantes na rua e me entristeci com isso. Chorei ao ser demitida, chorei de saudade, chorei de emoção no meio da rua. Mas também ri até doer minha boca, tive dor mas não precisei ir no médico nenhuma vez (uma vitória para uma hipocondríaca!). Congelei no inverno, fritei no verão, fui à praia, vi a neve, fiz topless involuntário (leia-se um mega caixote no mar) e voluntariamente vesti quilos de roupa. Perdi e ganhei quilos, comi a dieta mediterrânea mas também a marroquina, a francesa, a portuguesa, a inglesa e a latina. Descobri os latinos, descobri que sou latina e me orgulhei muito disso. Aprendi a dançar salsa e merengue, mas também a cozinhar, a lavar o banheiro, a esfregar o chão, a limpar vidros, a fazer café, a carregar bandeja (sem derrubar!), a lavar louça. Me cansei. Dormi. Dormi num barco, dormi na casa de amigos, dormi em pé, dormi na areia, dormi no metrô, não dormi, peguei metrô, ônibus, trem, avião, andei de bicicleta, andei por quase toda Madrid. Viajei, sozinha, com meus país, com amigos novos e com os antigos que reencontrei pela Europa. Tomei vinhos maravilhosos - e baratos!. Gastei, economizei, mudei, me surpreendi e até me acostumei, e, como poucas vezes, me senti muito viva, uma sensação que é pra sempre, que nada mais pode tirar de mim.
Ano passado eu fiz 26 anos e escrevi que queria achar meu espelho. Este ano eu fiz 27 anos e escrevo que já não preocupo mais em encontrar esse espelho, porque meu reflexo mais fiel está no mundo, nas pessoas, no que ainda não vi e que anseio para ver nesse caminho que continuarei a construir (depois de umas fériazinhas em casa!).

"Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas prórpias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sobre o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver."
Amir Klink.

sábado, 5 de setembro de 2009

Cigana por um mês

Já que tenho ancestrais romanos e húngaros, decidi explorar minhas raízes ciganas no mês de agosto. Depois de 26 anos morando na mesma casa, em um só mês "morei" em quatro lugares diferentes, sendo um deles um barco.
Ok, admito que não foi uma experiência voluntária: o contrato do meu apartamento terminou no fim de julho, e um amigo do Rio que mora em Madrid com a família me ofereceu seu apartamento nos 15 primeiros dias de agosto a começar pelo dia 2, quando viajaria de férias. Nesse hiato de dois dias, fui pra casa de uma amiga espanhola que ainda me ajudou a transportar minhas 5 malas, um caixote de livros e papéis e umas 50 sacolas (impressionante nossa capacidade de acumular coisas em alguns meses).
Depois de dois dias com a Susana, que mora ao norte de Madrid em uma casa com um jardim lindo e uma piscina que dá outra cor para o verão sufocante dessa cidade, passei 15 dias no apartamento do Fernando em regime de quarentena para escrever o trabalho final do master. Ao sair de lá, tinha planejado partir em uma viagem de uma semana em um barco da ONG de meio ambiente, onde estou "estagiando", que percorre a costa espanhola fazendo campanhas em portos e praias.
Mas, como quase tudo nessa viagem foge dos meus planos, a campanha atrasou alguns dias e, ao mesmo tempo, fui chamada para trabalhar nos fins de semana até o início de setembro num restaurante vegetariano que adoro.
Como a Susana foi viajar, recorri então a uma amiga uruguaia, que me abriu as portas do seu apartamento, o meu 3º lar do mês, por outra semana mais, uma semana de muito estudo, muito calor mas ótimas conversas.
Chegou a última semana de agosto e eu parti rumo à minha 4ª cama do mês, dessa vez o sofá da cabine do veleiro da ONG. Ok, confess que já não tenho o mesmo espírito hippie de alguns anos atrás e prefiro morar em uma casa mais limpinha e com gente que tome outros banhos além do de mar, mas foi maravilhoso dormir com o balanço do mar (sensação me acompanhou em terra firme nos 4 dias seguintes) e olhando para o céu, estudar na praia, comer muitos frtos do mar, ser assessora de imprensa de campanhas ecológica e, sobretudo, torrar ao sol.
Agosto acabou, mas meu espírito de cigana ainda dura mais alguns dias, que eu passo de novo na casa do amigo carioca, que está semana está de novo fora da cidade.
Pra quem nunca tinha se mudado na vida, tenho que dizer que não me saí mal. Devem ser minhas raízes ciganas.
Raízes, porém, que em alguns dias descansarão, agora sim, no meu lar, na minha cama, a de toda a minha vida...
Sim, estou voltando pra casa.


E, abaixo, o pôr do sol de Madrid visto da varanda da Raquel, em um dos ótimos momentos desse mês itinerante.

domingo, 30 de agosto de 2009

As férias - capítulo 3

Girona. Esse era o destino do primeiro ônibus do dia que saía do aeroporto, e, em instantes, o meu também. Meia hora depois e lá estava, na cidade catalã que se apresenta como pioneira nos estudos da Cabala e na convivências entre judeus, árabes e cristãos. E tudo isso aos pés dos Pirineus, que eu avistava da muralha que cerca o centro histórico da cidade.

Lá também fica o museu de história judaica, que eu fui visitar e onde topei com um casal de Miami que eu pensei que, por coincidência, podiam conhecer meus tios que moram lá. Não conheciam, mas, por coincidência, a mulher era brasileira, o que incentivou uma conversa que se prolongou em um café e até a hora do almoço.
Mas eles tinham que seguir o roteiro deles - que consistia na árdua tarefa de atravessar a fronteira com a França de carro para um encontro de Ioga - e eu, o meu, que, er.. bem.. a verdade é que não tinha nenhum roteiro, a não ser pegar um ônibus para Madrid no fim do dia. Mas ainda faltava muitas horas para isso, então lá fui eu pra fila da rodoviária de Girona descobrir o meu destino na televisãozinha que mostra as próximas saídas.
Uma delas era Lloret de Mar, uma cidade de praia na fronteira com a França, na chamada Costa Brava espanhola. Então tá. Uma hora depois, e lá estava eu, caminhando pelos 100 metros que dividiam a rodoviária da praia de uma cidade que não parecia em nada com os típicos pueblos espanhóis: ali via-se muita gente loura, barraquinhas de crepe no meio da rua, como em Paris, e um idioma que mistura o francês com o catalão e, ok, um pouco de espanhol.
Pensei que essa experiência antropológica terminaria quando chegasse na praia, onde planejava torrar até o fim da tarde. Mas lá dava até para escrever um tratado sobre a humanidade.
*
Lloret de Mar, a farofada européia na fronteira com a França
*
Diferente de Barcelona, a areia não reluz dourada em Lloret de Mar. Aliás, não é nem areia, são minúsculas pedrinhas claras. A geografia também é bem diferete: a praia é mais rochosa, selvagem. O mar é bem mais agitado, assim como a frequência da praia: estava tão cheio que foi difícil achar um espacinho pra minha canga (ok, tinha a mala também, que não pude deixar na rodoviária porque não tinham locker).

E ali, no meio daquela multidão, aprendi o que é uma farofada européia. Ao contrário do clima blasé e os top less de Barcelona, a turma lá deita em cima de bóia enormes (na areia!) e come lanche do Mc Donald´s que fica ali na esquina.
Mas eu disse farofada à européia: as rochas e um castelo na ponta da praia conseguem ofuscar a bagunça. Bagunça que já se nota desde a rodoviária, que fica a não mais que 200 metros da praia. Nesse trajeto, vende-se de tudo, inclusive - e principalmente - crepes e waffles, em barraquinas como as de Paris.

Mas ese não é o único sinal de que estamos na fronteira com a França: além do catalão e do espanhol, o francês também está nas placas de rua e nas conversas. Tentei acompanhar algumas e tenho certeza de ter ouvido os três idiomas.
Apesar de que foi o espanhol que me serviu pra pedir a uma família do meu lado para olhar a minha mala enquanto eu ia dar um mergulho. Tarefa árdua nesta praia em que: 1) as ondas estouram na beira, formando uma grande "rampa", e 2) nessa rampa fica metade da multidão da praia, que se deixa arrastar pelas ondas, numa espécie de caldo voluntário. É impressionante o gosto que tem essa gente por levar caldo. Pensei que deve ser coisa dos europeus do norte, que parecem ser maioria por aqui.
A excitação era tanta que me contagiou, e me taquei no mar feliz e saltitante por me refrescar do calor fritante que fazia nas águas da Costa Brava.
Chique? Podia até ser, até a hora que eu tentei sair do mar e tomei um caixotão que levou o biquíni la na cabeça.
Ok, nada muito anormal num lugar em que as pessoas voluntariamente levam caldo e ficam de peito de fora. Então eu saí rindo, embora com um quilo de areia no nariz e outros dois no cabelo.
Me sentei ao sol e logo voltei à rodoviária, onde peguei um ônibus para Barcelona e dali direto pra Madrid. Depois de oito horas de viagem, enfrentei mais 40 minutos esperando o ônibus noturno para me levar a Plaza de la Cibeles e, dali, para casa.
O enorme relógio da Cibeles marcava 4h55 quando cheguei, exatas 24 horas depois de eu chegar no aeroporto de Barcelona e nem imaginando que, mais uma vez, seria presenteada com o imprevisto.
Olhei para a estrela que acompanhava o relógio da Cibeles e pensei: como quero ter outras viagens como essa!

sábado, 22 de agosto de 2009

Vai entender...

Coisas do capitalismo em crise: Na Espanha um casaquinho custa o dobro de uma passagem de avião e, ao mesmo tempo, 20 centavos menos que o bolo de cenoura do Starbucks - palavra de quem comprou os três e gastou, no total, 5,20 euros.

(só uma pausa antes do capítulo 3 das férias)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

As férias - capítulo 2


Dois dias depois e aqui estou, estirada na praia de Barceloneta, em Barcelona, sob um sol de 40 graus que arde até as 21h30 e sobre uma areia que, como o brinco de capim dourado que uso, reluz como grãozinhos de ouro quando o sol bate na borda do mar Mediterrâneo.
Ah, o Mediterrâneo. Esta foi a primeira vez que mergulhei, nadei e boiei nele (ok, confesso que não é muito diferente do Atlântico, fica então de licença poética tá?). E boiei com meus lábios ardendo pelo sal (este sim, mais forte que no Atlântico), meu corpo tostando com o sol mas minha alma, seca por um banho de mar, sugando todo o prazer daquele momento.
Esse excesso de elogios pode uma visão romântica fruto da nostalgia que me bateu durante este verão de muito calor e nenhuma umidade em Madrid, somado aos seis meses sem tocar o mar. Até porque, praia por praia, prefiro Ipanema. Mas a Barceloneta, especificamente, é uma praia que compete com as nossas, embora também tenha seus defeitos. Um deles, os pick pockets profissionais, que inclusive tentaram roubar minha bolsa enquanto eu boiava no mar.
Fui salva por umas meninas holandesas de topless que estavam sentadas ao meu lado(o Marcelo e Renato se arrependeram profundamente de não ter me acompanhado na praia esse dia). Como boa carioca, havia pedido que elas olhassem minha bolsa, mas só pela força do hábito. Afinal de contas, pensei, sorry periferia, mas estou numa praia européia. Bobinha.
Comemorei o fato de que não tinha sido roubada (de novo, como boa carioca, isso é motivo de comemoração) devorando um bocadillo de calamares (= anéis de lula a milanesa na baguete) ali mesmo na areia, enquanto lia "Geografia a Fome" e esperava o Marcelo, que foi me encontrar para um passeio na orla para o pôr do sol (leia-se 22h).
E passeamos por uma das partes mais encantadoras de Barcelona: ótimos músicos se apresentando na rua, pessoas sentadas na grama assistindo, filas de bares e restaurantes à beira-mar e uma zona portuária cujo charme e movimento foram restaurado para as Olimpíadas de 92 e se mantêm até hoje.
Foi um fim de dia perfeito daquela viagem perfeita: matei toda a minha sede de mar e me diverti com amigos do Brasil - que, diferente dos ótimos amigos brasileiros que eu fiz aqui, fazem parte da minha história, são um pouco como família e, por isso, fazem eu me sentir um pouco mais em casa. No meio da madrugada peguei o ônibus até o aeroporto de Girona, cidade vizinha a Barcelona e de ontem saem os voos baratos para Madrid, para voltar feliz e contente a Madrid. Ledo engano...
Perdi o voo porque estava sem o passaporte (achei que a carteira de residência espanhola bastasse). Me disseram que ligasse para a polícia da Catalunya, que enviaria uma viatura ao aerporto para registrar a perda do passaporte e, com essa denúncia, conseguiria viajar. Mas eles deviam estar fazendo operação em alguma favela de Barcelona porque passou uma hora e nada. Fui tentar falar com os simpáticos e flexíveis funcionários da RyanAir, que disseram que podiam me colocar num voo da tarde por uma mísera taxa de 100 euros, apenas 95 euros a mais do que eu tinha pago.
Então ali estava eu, as 6h30, sem dormir, num aeroporto lotado de gente, no meio do nada, sem passagem e sem destino. Opa, eu disse sem destino? Hmm, aquele estresse começou a ficar interessante: quem sabe não seria uma chance de me aventurar por aí? Fui ao balcão de informação e decidi ir para onde saía o primeiro ônibus. E lá fui eu, para mais um dia de ótimos imprevistos...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

As férias, capítulo 1

O capítulo um começa com uma dúvida (pra variar), que remonta a meados de julho (sim, estou um mês atrasada):
Comecei a trabalhar em uma sorveteria/cafeteria, depois de ser demitida de uma patisserie belga que eu estava amando mas que cortou 15 funcionários por causa da bosta da crise.
O trabalho, diferente da patisserie belga, onde o mundo era cor de rosa e o pao, maravilhoso, é bem puxado: quase 10 horas por dia, seis dias por semana, e não pense que é só ficar colocando bolinhas de sorvete no copinho. Vai daí pra baixo.
O salário é ruim para a exigência de trabalho, mas bom em termos relativos. Dá para me manter bem e ainda juntar uma grana extra e poder fazer um doutorado mais tranquila. Além disso, o cara que me contratou aceitou numa boa a minha carteira de identidade de estudante (que, apesar de legal, é rejeitada por muitas empresas), e a gerente é uma argentina super fofa. Isso para não mencionar que posso passar o dia tomando sorvete e sucos, comendo croissants e sanduiches.
Bem, er, então, qual é a dúvida?
Basicamente, que tenho até setembro para escrever a tese e, apesar de não estar mais em aulas, ia começar em breve a parte prática do curso - que previa uma viagem de cinco dias em agosto. E, depois de nove horas esfregando chão, servindo sorvetes, lavando louça, passando calor e afins, já não me sobra muito ânimo. Menos ainda porque que me trocaram de turno e a minha chefe, que era uma argentia fofa, passou a ser uma bruxa espanhola grossa e mal-humorada.
Acrescente-se a isso o fato de que, dias depois, chegaram a Madrid o Renato e o Marcelo, dois amigos do Rio com quem havia combinado três dias de praia em Barcelona, o que, para quem encara os 40 graus diários e a secura de uma cidade que está a pelo menos três horas de qualquer resquício de mar, é um paraíso.
E foi sonhando com esse paraíso que cheguei na sorveteria as 8h de um domingo, alguns minutos antes de a gerente bruxa soltar a sua primeira grosseria do dia, reclamando que eu estava colocando os croissants na bandeja com uma mão, em vez de duas. Pensei: pronto, esse era o motivo que faltava para me convencer a jogar a toalha - neste caso, o avental. Comi calmamente um croissant, chamei a gorda pro canto e disse: olha, assim não está dando para eu continuar, você é muito grossa e não dá para trabahar dessa forma, etc e tal.
Terminei o discurso, tirei o avental e saí correndo para pegar o Renato e o Marcelo ainda na minha casa, aonde eles se hospedavam, e aproveitar o dia em Madrid.
Tudo bem, foi tudo muito intenso, com cara de cena de filme e tal, mas a dúvida de abrir mão de um emprego que poderia me garantir uns meses mais aqui ainda rondava minha cabeça. Até pararmos para ouvir um grupo de violinistas que se apresentavam na rua. Ali, ao som de Primavera de Vivaldi (a música-tema da viagem com os meus pais pela Europa) e de Tango e na entrad da Plaza Mayor, fechei os olhos e, só pelo que senti naquele momento, já valeu a pena.
E olha que ainda nem tínhamos embarcado para Barcelona, onde muito sol e mais confusões me aguardavam...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Homeless

Lembra o "apartamento perfeito " que tinha encontrado lá atrás? Pois bem, amanha vou deixá-lo de mala(s) e cuia(s). Por nenhum motivo específico se nao o de que o contrato estabelecia entregar as chaves no dia 31 de julho - uma data que, lá nos idos de janeiro, me parecia muito longe de chegar.
Mas tá chegando, o que justifica a falta de "til" nesse texto. Explico: a internet lá de casa já foi bloqueada, e por isso esta semana tenho que encarar essa cadeira dura da biblioteca para entrar no computador. Porque o meu já está devidamente empacotado, junto a outros tantos trecos (é incrível a nossa capacidade de juntar trecos, e mais ainda, de nao conseguir jogá-los fora) empilhados no meu quarto e cujo destino..er..hum..ainda é incerto.
Esta tarde é a vez dos pôsteres, casacos e calças saírem das paredes e dos armários rumo às quatro malas que, temo, serao muito pequenas para tudo. Aos poucos meu quarto, meu espacinho nesses seis meses de Espanha, vai se desfazendo, embora na minha memória ficará intacto para sempre.
A partir de domingo, uma nova fase. Sexta e sábado sao hiatos que ainda nao resolvi como preencher. O pior é que nem existem pontes aqui em Madrid pra eu dormir debaixo.
Há seis meses escrevi sobre a mudança para o apê em um texto que intitulei "Céu e teto". Amanha deixarei esse teto em busca de um novo, mas o mais incrível é que o céu, uma das maiores qualidades de Madrid, esse sim continua o mesmo, com um azul quase fluorescente de tao forte e a lua como que boiando sobre ele.
E já aprendi: quando bate a saudade, a incerteza e outras sensaçoes chatinhas, é só olhar pra cima e na hora me lembro desse presente, o céu de Madrid - só por ele valeu a pena ter vindo! Daí o teto vira o de menos...
----------------
Enquanto procuro teto, vou deixá-los com notas das últimas duas semanas, que começaram com um emprego de 10 horas diárias numa sorveteria e terminaram em Barcelona e Costa Brava, passando, pra variar, por um monte de confusoes. Aguardem os próximos capítulos!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Madrid ferve. E brilha

Como já escrevi sobre os graus negativos de quando cheguei na Espanha e sobre os agradáveis e floridos dias de primavera, e como não consigo escapar do fácil recurso de falar sobre o tempo, não tem como fugir, literalmente, da chegada de verão em Madrid.
A cidade ferve, também literalmente. Imagine um calor de 40 graus. Agora imagine este mesmo calor numa cidade com umidade mínima e nenhuma praia, nem cachoeira ou laguinho pra molhar os pés (ok, há chafarizes), o que, para uma carioca, é essencial em um fim de semana com dias de sol, que aparece quase todos os dias em Madrid.
Confesso que um ou outro dia me bateu uma certa angústia e sensação de sufocamento por não ter uma praia por perto, mas tô longe de reclamar do calor que se instalou definitivamente em Madrid. É so lembrar de como eu sofri debaixo de duas calças e cinco casacos há alguns meses e já me sinto no paraíso, mesmo que um paraíso sem praia nem ar condicionado. Tudo bem, tem as piscinas (amanhã vou em uma na casa de uma amiga, iupiii) e os tais chafarizes, em volta dos quais já disfrutei de agradáveis noites com boas conversas e música ao vivo.
Agora mesmo estou aqui na sala curtindo a brisa que entra da minha varanda, um dos pequenos prazeres da vida sobre os quais minha mãe acaba de me escrever, depois de eu ligar pra ela ontem à noite meio tristonha.
A noite, aliás, é efervescente em Madrid, em todos os sentidos. O primeiro, o óbvio, das pessoas, de todos os tipos e todas as idades, na rua durante toda a madrugada. Tudo bem que não curto muito esses botellones que a galera adora fazer aqui em Madrid (hábito de beber cerveja em garrafa com os amigos sentado em qualquer meio fio e que inclui meninas mega produzidas mas esparramadas no chão, falar alto e deixar a calçada bem emporcalhada), mas já escrevi aqui como amo as noite de verão. Ontem, por exemplo, peguei um ônibus noturno as 2h30 pra encontrar os amigos do master num bar, sem qualquer outra preocupação que não fosse encontrar o tal bar. Já hoje é o dia da Parada Gay em Madrid, que vai acontecer na Gran Vía, aqui perto da minha casa, e se estenderá por Chueca, o bairro gay e modernex da cidade.
Purpurinas à parte, o que também faz a noite de Madrid brilhar é a luz que vem da lua maravilhosa daqui e dos prédios clássicos como o Palácio Real, iluminados durante toda a madrugada. Incomparável, e só de olhar para essa iluminação, a da lua, a dos prédios e a do rosto das pessoas, já faz tudo valer a pena!
Bom, então tá registrado - aqui e nos jornais e telejornais espanhóis, que hoje destacam as praias lotadas na Andalucia e na Galícia, além dos casos de gripe suína, da queda no desemprego e do fechamento de uma central nuclear espanhola - e nas vitrines que anunciam as "rebajas": o verão chegou em Madrid. Por fin!!!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Do bar árabe ao brasileiro em 24 horas. Brigada, meu anjinho

Sabe essas histórias loucas do tipo uma reviravolta em 24 horas, uma pessoa que vira seu melhor amigo em duas horas e ficar até as 6h na rua vagando pela noite? Nunca acontece comigo. A minha prudência e os meus pés fincados no chão não permitem.
Não permitiam, ou melhor, não permitiram entre a noite de sexta e de sábado passados, período em que fui da biblioteca pro bar para trabalhar, fiz uma amizade no meio do caminho, briguei com o dono do bar, saí de lá pra (espero) nunca mais voltar, varei a madrugada madrilenha conversando com o novo amigo, fui a uma procissão na manhã de sábado, fiz uma sessão de fotos (como fotógrafa, claro), fui a uma entrevista e consegui um novo emprego.
Ok, agora explico com a minha tradicional calma e lentidão.
Como já contei antes, estava trabalhando em um bar árabe nos fins de semana. Não era bem a idéia romântica que eu tinha de trabalhar num café europeu, aonde as pessoas pediam um muffin com chocolate quente enquanto liam seus livros de sociologia com a mão o queixo e as pernas cruzadas sobre delicados banquinhos e ao som de uma música leve de fundo. Mas era uma grana, e só por isso já valia.
Valia, eu disse bem. Não foi pelo trabalho cansativo e braçal, pela concentração constante pra não derrubar nenhum copo, pela música horrível que penetrava nos mes sonhos mais profundos, por esfregar o chão e caminhar 15 minutos até o ponto de ônibus depois do expediente. Nada disso me faria sair correndo dali.
Mas os árabes começaram a encher o saco. Além de muito grossos e estúpidos, os dois ficavam no bar o tempo todo e me faziam exigências, cada qual a sua maneira, o tempo todo, do tipo obrigar um casal a se mudar de mesa, dar bronca num grupo de meninos que demorava a se decidir pela bebida e proibir a venda de chás orientais depois da meia-noite, mesmo que a pessoa tivesse ido até o bar unicamente para prová-los.
Embora a minha alma carioca quisesse mandá-los pra puta que os pariu o tempo todo, pratiquei minha paciência e fui levando. Até que um dia...
O dia era sexa-feira 12 de junho, e eu andava em direção ao bar procurando desesperadamente uns chineses que ficam na Puerta del Sol oferecendo massagens em um banquinho, pra aliviar a tensão nas costas. Não achei, então fui caminhando tranquilamente até que, do nada, decidi entrar num café, que tocava Jorge Drexler, um cantor uruguaio que eu adoro. Que coincidência, pensei, pouco antes de o garçom do lugar me perguntar, do nada, se eu era brasileira. Que coincidencia, repeti, agora em voz alta, quando ele me falou que teve a sensação que o próximo cliente a entrar seria brasileiro, pra traduzir um poema em português do Chico Buarque que ele tinha nas mãos.
Depois de traduzir uma parte, disse que se desse tempo voltava lá porque trabalhava ali em frente, apontado qual era o bar. Fiquei pensando naquela coincidencia durante a jornada de trabalho, mais uma vez estressante, até que, quase no final, o tal do garçom me aparece lá, dizendo que me esperaria sair.
Um dos árabes, que já tinha demonstrado umas pontas de ciúmes sempre que eu conversava com qualquer pessoa do sexo masculino - o que estava me deixando seriamente preocuapada - olhou com cara feia e aí pronto, foi o que faltava. Ele ficou puto ao perguntar se o garoto era meu amigo e descobrir que eu o tinha conhecido naquela noite, começou uma discussão, os argentinos que trabalham, e que já tinham me alertado sobre a incompatibilidade do nosso sangue latino com o deles, lá levantaram, enfim, armou-se um circo.
Aí sabe aquelas cenas de filme que congelam e um personagem fica de fora analisando? Foi exatamente assim que me senti. Pensei: não, peraí gente, O QUE QUE É ISSO? que lugar é esse??? socorro.
Resumindo, já que isso tá virando capítulo de livro, saí de lá naquela sexta pra nunca mais voltar, e quando coloquei o pé pra fora lá estava o tal do garçom me esperando. Se desculpou e disse: acho que te arrumei um problema. Eu olhei e disse: não, acho que você me tirou de um problema.
Depois de ficarmos até as 6h conversando (sim, conversando) na Puerta del Sol sobre as coisas mais loucas como se fossemos amigos desde o Jardim II - o que foi aos poucos me despindo da energia pesada do bar árabe - nos despedimos e eu voltei pra casa, tomei um banho, deitei na cama e pensei: obrigado, meu anjo da guarda, por enviar alguém pra me tirar dos caminhos errados e me colocar nos bons.
Acordei tarde no dia seguinte, 13 de junho, mas a tempo de ir na Igreja de Santo Antonio em homenagem ao dia dele (não, não fui pedir marido). Depois de também agradecer e tirar fotos da comemoração, fui num restaurante brasileiro perto da minha casa onde havia deixado um currículo há tempos e que agora, justo agora, precisavam de um extra.
Saí de lá com um novo trabalho - agora entre brasileiros, pães de queijo, feijoada, aipim, cajuzinho, DVD do Paulinho da Viola - mas, principalmente, muito feliz com a sensação, a mais forte que já senti, da proteção e das mãos que constantemente se estendem a mim.

Bom, pra amenizar, umas fotos da procissão de Santo Antônio:

Mocinhas fantasiadas na procissão


"Meninas" na fila da tradição do alfinete (elas colocam a mão no bolo de alfinete e o número de alfinetes que grudarem na mão, diz-se, é o número de maridos que a moça terá)


Casal na igreja de Santo Antônio