domingo, 30 de agosto de 2009

As férias - capítulo 3

Girona. Esse era o destino do primeiro ônibus do dia que saía do aeroporto, e, em instantes, o meu também. Meia hora depois e lá estava, na cidade catalã que se apresenta como pioneira nos estudos da Cabala e na convivências entre judeus, árabes e cristãos. E tudo isso aos pés dos Pirineus, que eu avistava da muralha que cerca o centro histórico da cidade.

Lá também fica o museu de história judaica, que eu fui visitar e onde topei com um casal de Miami que eu pensei que, por coincidência, podiam conhecer meus tios que moram lá. Não conheciam, mas, por coincidência, a mulher era brasileira, o que incentivou uma conversa que se prolongou em um café e até a hora do almoço.
Mas eles tinham que seguir o roteiro deles - que consistia na árdua tarefa de atravessar a fronteira com a França de carro para um encontro de Ioga - e eu, o meu, que, er.. bem.. a verdade é que não tinha nenhum roteiro, a não ser pegar um ônibus para Madrid no fim do dia. Mas ainda faltava muitas horas para isso, então lá fui eu pra fila da rodoviária de Girona descobrir o meu destino na televisãozinha que mostra as próximas saídas.
Uma delas era Lloret de Mar, uma cidade de praia na fronteira com a França, na chamada Costa Brava espanhola. Então tá. Uma hora depois, e lá estava eu, caminhando pelos 100 metros que dividiam a rodoviária da praia de uma cidade que não parecia em nada com os típicos pueblos espanhóis: ali via-se muita gente loura, barraquinhas de crepe no meio da rua, como em Paris, e um idioma que mistura o francês com o catalão e, ok, um pouco de espanhol.
Pensei que essa experiência antropológica terminaria quando chegasse na praia, onde planejava torrar até o fim da tarde. Mas lá dava até para escrever um tratado sobre a humanidade.
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Lloret de Mar, a farofada européia na fronteira com a França
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Diferente de Barcelona, a areia não reluz dourada em Lloret de Mar. Aliás, não é nem areia, são minúsculas pedrinhas claras. A geografia também é bem diferete: a praia é mais rochosa, selvagem. O mar é bem mais agitado, assim como a frequência da praia: estava tão cheio que foi difícil achar um espacinho pra minha canga (ok, tinha a mala também, que não pude deixar na rodoviária porque não tinham locker).

E ali, no meio daquela multidão, aprendi o que é uma farofada européia. Ao contrário do clima blasé e os top less de Barcelona, a turma lá deita em cima de bóia enormes (na areia!) e come lanche do Mc Donald´s que fica ali na esquina.
Mas eu disse farofada à européia: as rochas e um castelo na ponta da praia conseguem ofuscar a bagunça. Bagunça que já se nota desde a rodoviária, que fica a não mais que 200 metros da praia. Nesse trajeto, vende-se de tudo, inclusive - e principalmente - crepes e waffles, em barraquinas como as de Paris.

Mas ese não é o único sinal de que estamos na fronteira com a França: além do catalão e do espanhol, o francês também está nas placas de rua e nas conversas. Tentei acompanhar algumas e tenho certeza de ter ouvido os três idiomas.
Apesar de que foi o espanhol que me serviu pra pedir a uma família do meu lado para olhar a minha mala enquanto eu ia dar um mergulho. Tarefa árdua nesta praia em que: 1) as ondas estouram na beira, formando uma grande "rampa", e 2) nessa rampa fica metade da multidão da praia, que se deixa arrastar pelas ondas, numa espécie de caldo voluntário. É impressionante o gosto que tem essa gente por levar caldo. Pensei que deve ser coisa dos europeus do norte, que parecem ser maioria por aqui.
A excitação era tanta que me contagiou, e me taquei no mar feliz e saltitante por me refrescar do calor fritante que fazia nas águas da Costa Brava.
Chique? Podia até ser, até a hora que eu tentei sair do mar e tomei um caixotão que levou o biquíni la na cabeça.
Ok, nada muito anormal num lugar em que as pessoas voluntariamente levam caldo e ficam de peito de fora. Então eu saí rindo, embora com um quilo de areia no nariz e outros dois no cabelo.
Me sentei ao sol e logo voltei à rodoviária, onde peguei um ônibus para Barcelona e dali direto pra Madrid. Depois de oito horas de viagem, enfrentei mais 40 minutos esperando o ônibus noturno para me levar a Plaza de la Cibeles e, dali, para casa.
O enorme relógio da Cibeles marcava 4h55 quando cheguei, exatas 24 horas depois de eu chegar no aeroporto de Barcelona e nem imaginando que, mais uma vez, seria presenteada com o imprevisto.
Olhei para a estrela que acompanhava o relógio da Cibeles e pensei: como quero ter outras viagens como essa!

sábado, 22 de agosto de 2009

Vai entender...

Coisas do capitalismo em crise: Na Espanha um casaquinho custa o dobro de uma passagem de avião e, ao mesmo tempo, 20 centavos menos que o bolo de cenoura do Starbucks - palavra de quem comprou os três e gastou, no total, 5,20 euros.

(só uma pausa antes do capítulo 3 das férias)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

As férias - capítulo 2


Dois dias depois e aqui estou, estirada na praia de Barceloneta, em Barcelona, sob um sol de 40 graus que arde até as 21h30 e sobre uma areia que, como o brinco de capim dourado que uso, reluz como grãozinhos de ouro quando o sol bate na borda do mar Mediterrâneo.
Ah, o Mediterrâneo. Esta foi a primeira vez que mergulhei, nadei e boiei nele (ok, confesso que não é muito diferente do Atlântico, fica então de licença poética tá?). E boiei com meus lábios ardendo pelo sal (este sim, mais forte que no Atlântico), meu corpo tostando com o sol mas minha alma, seca por um banho de mar, sugando todo o prazer daquele momento.
Esse excesso de elogios pode uma visão romântica fruto da nostalgia que me bateu durante este verão de muito calor e nenhuma umidade em Madrid, somado aos seis meses sem tocar o mar. Até porque, praia por praia, prefiro Ipanema. Mas a Barceloneta, especificamente, é uma praia que compete com as nossas, embora também tenha seus defeitos. Um deles, os pick pockets profissionais, que inclusive tentaram roubar minha bolsa enquanto eu boiava no mar.
Fui salva por umas meninas holandesas de topless que estavam sentadas ao meu lado(o Marcelo e Renato se arrependeram profundamente de não ter me acompanhado na praia esse dia). Como boa carioca, havia pedido que elas olhassem minha bolsa, mas só pela força do hábito. Afinal de contas, pensei, sorry periferia, mas estou numa praia européia. Bobinha.
Comemorei o fato de que não tinha sido roubada (de novo, como boa carioca, isso é motivo de comemoração) devorando um bocadillo de calamares (= anéis de lula a milanesa na baguete) ali mesmo na areia, enquanto lia "Geografia a Fome" e esperava o Marcelo, que foi me encontrar para um passeio na orla para o pôr do sol (leia-se 22h).
E passeamos por uma das partes mais encantadoras de Barcelona: ótimos músicos se apresentando na rua, pessoas sentadas na grama assistindo, filas de bares e restaurantes à beira-mar e uma zona portuária cujo charme e movimento foram restaurado para as Olimpíadas de 92 e se mantêm até hoje.
Foi um fim de dia perfeito daquela viagem perfeita: matei toda a minha sede de mar e me diverti com amigos do Brasil - que, diferente dos ótimos amigos brasileiros que eu fiz aqui, fazem parte da minha história, são um pouco como família e, por isso, fazem eu me sentir um pouco mais em casa. No meio da madrugada peguei o ônibus até o aeroporto de Girona, cidade vizinha a Barcelona e de ontem saem os voos baratos para Madrid, para voltar feliz e contente a Madrid. Ledo engano...
Perdi o voo porque estava sem o passaporte (achei que a carteira de residência espanhola bastasse). Me disseram que ligasse para a polícia da Catalunya, que enviaria uma viatura ao aerporto para registrar a perda do passaporte e, com essa denúncia, conseguiria viajar. Mas eles deviam estar fazendo operação em alguma favela de Barcelona porque passou uma hora e nada. Fui tentar falar com os simpáticos e flexíveis funcionários da RyanAir, que disseram que podiam me colocar num voo da tarde por uma mísera taxa de 100 euros, apenas 95 euros a mais do que eu tinha pago.
Então ali estava eu, as 6h30, sem dormir, num aeroporto lotado de gente, no meio do nada, sem passagem e sem destino. Opa, eu disse sem destino? Hmm, aquele estresse começou a ficar interessante: quem sabe não seria uma chance de me aventurar por aí? Fui ao balcão de informação e decidi ir para onde saía o primeiro ônibus. E lá fui eu, para mais um dia de ótimos imprevistos...

terça-feira, 4 de agosto de 2009

As férias, capítulo 1

O capítulo um começa com uma dúvida (pra variar), que remonta a meados de julho (sim, estou um mês atrasada):
Comecei a trabalhar em uma sorveteria/cafeteria, depois de ser demitida de uma patisserie belga que eu estava amando mas que cortou 15 funcionários por causa da bosta da crise.
O trabalho, diferente da patisserie belga, onde o mundo era cor de rosa e o pao, maravilhoso, é bem puxado: quase 10 horas por dia, seis dias por semana, e não pense que é só ficar colocando bolinhas de sorvete no copinho. Vai daí pra baixo.
O salário é ruim para a exigência de trabalho, mas bom em termos relativos. Dá para me manter bem e ainda juntar uma grana extra e poder fazer um doutorado mais tranquila. Além disso, o cara que me contratou aceitou numa boa a minha carteira de identidade de estudante (que, apesar de legal, é rejeitada por muitas empresas), e a gerente é uma argentina super fofa. Isso para não mencionar que posso passar o dia tomando sorvete e sucos, comendo croissants e sanduiches.
Bem, er, então, qual é a dúvida?
Basicamente, que tenho até setembro para escrever a tese e, apesar de não estar mais em aulas, ia começar em breve a parte prática do curso - que previa uma viagem de cinco dias em agosto. E, depois de nove horas esfregando chão, servindo sorvetes, lavando louça, passando calor e afins, já não me sobra muito ânimo. Menos ainda porque que me trocaram de turno e a minha chefe, que era uma argentia fofa, passou a ser uma bruxa espanhola grossa e mal-humorada.
Acrescente-se a isso o fato de que, dias depois, chegaram a Madrid o Renato e o Marcelo, dois amigos do Rio com quem havia combinado três dias de praia em Barcelona, o que, para quem encara os 40 graus diários e a secura de uma cidade que está a pelo menos três horas de qualquer resquício de mar, é um paraíso.
E foi sonhando com esse paraíso que cheguei na sorveteria as 8h de um domingo, alguns minutos antes de a gerente bruxa soltar a sua primeira grosseria do dia, reclamando que eu estava colocando os croissants na bandeja com uma mão, em vez de duas. Pensei: pronto, esse era o motivo que faltava para me convencer a jogar a toalha - neste caso, o avental. Comi calmamente um croissant, chamei a gorda pro canto e disse: olha, assim não está dando para eu continuar, você é muito grossa e não dá para trabahar dessa forma, etc e tal.
Terminei o discurso, tirei o avental e saí correndo para pegar o Renato e o Marcelo ainda na minha casa, aonde eles se hospedavam, e aproveitar o dia em Madrid.
Tudo bem, foi tudo muito intenso, com cara de cena de filme e tal, mas a dúvida de abrir mão de um emprego que poderia me garantir uns meses mais aqui ainda rondava minha cabeça. Até pararmos para ouvir um grupo de violinistas que se apresentavam na rua. Ali, ao som de Primavera de Vivaldi (a música-tema da viagem com os meus pais pela Europa) e de Tango e na entrad da Plaza Mayor, fechei os olhos e, só pelo que senti naquele momento, já valeu a pena.
E olha que ainda nem tínhamos embarcado para Barcelona, onde muito sol e mais confusões me aguardavam...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Homeless

Lembra o "apartamento perfeito " que tinha encontrado lá atrás? Pois bem, amanha vou deixá-lo de mala(s) e cuia(s). Por nenhum motivo específico se nao o de que o contrato estabelecia entregar as chaves no dia 31 de julho - uma data que, lá nos idos de janeiro, me parecia muito longe de chegar.
Mas tá chegando, o que justifica a falta de "til" nesse texto. Explico: a internet lá de casa já foi bloqueada, e por isso esta semana tenho que encarar essa cadeira dura da biblioteca para entrar no computador. Porque o meu já está devidamente empacotado, junto a outros tantos trecos (é incrível a nossa capacidade de juntar trecos, e mais ainda, de nao conseguir jogá-los fora) empilhados no meu quarto e cujo destino..er..hum..ainda é incerto.
Esta tarde é a vez dos pôsteres, casacos e calças saírem das paredes e dos armários rumo às quatro malas que, temo, serao muito pequenas para tudo. Aos poucos meu quarto, meu espacinho nesses seis meses de Espanha, vai se desfazendo, embora na minha memória ficará intacto para sempre.
A partir de domingo, uma nova fase. Sexta e sábado sao hiatos que ainda nao resolvi como preencher. O pior é que nem existem pontes aqui em Madrid pra eu dormir debaixo.
Há seis meses escrevi sobre a mudança para o apê em um texto que intitulei "Céu e teto". Amanha deixarei esse teto em busca de um novo, mas o mais incrível é que o céu, uma das maiores qualidades de Madrid, esse sim continua o mesmo, com um azul quase fluorescente de tao forte e a lua como que boiando sobre ele.
E já aprendi: quando bate a saudade, a incerteza e outras sensaçoes chatinhas, é só olhar pra cima e na hora me lembro desse presente, o céu de Madrid - só por ele valeu a pena ter vindo! Daí o teto vira o de menos...
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Enquanto procuro teto, vou deixá-los com notas das últimas duas semanas, que começaram com um emprego de 10 horas diárias numa sorveteria e terminaram em Barcelona e Costa Brava, passando, pra variar, por um monte de confusoes. Aguardem os próximos capítulos!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Madrid ferve. E brilha

Como já escrevi sobre os graus negativos de quando cheguei na Espanha e sobre os agradáveis e floridos dias de primavera, e como não consigo escapar do fácil recurso de falar sobre o tempo, não tem como fugir, literalmente, da chegada de verão em Madrid.
A cidade ferve, também literalmente. Imagine um calor de 40 graus. Agora imagine este mesmo calor numa cidade com umidade mínima e nenhuma praia, nem cachoeira ou laguinho pra molhar os pés (ok, há chafarizes), o que, para uma carioca, é essencial em um fim de semana com dias de sol, que aparece quase todos os dias em Madrid.
Confesso que um ou outro dia me bateu uma certa angústia e sensação de sufocamento por não ter uma praia por perto, mas tô longe de reclamar do calor que se instalou definitivamente em Madrid. É so lembrar de como eu sofri debaixo de duas calças e cinco casacos há alguns meses e já me sinto no paraíso, mesmo que um paraíso sem praia nem ar condicionado. Tudo bem, tem as piscinas (amanhã vou em uma na casa de uma amiga, iupiii) e os tais chafarizes, em volta dos quais já disfrutei de agradáveis noites com boas conversas e música ao vivo.
Agora mesmo estou aqui na sala curtindo a brisa que entra da minha varanda, um dos pequenos prazeres da vida sobre os quais minha mãe acaba de me escrever, depois de eu ligar pra ela ontem à noite meio tristonha.
A noite, aliás, é efervescente em Madrid, em todos os sentidos. O primeiro, o óbvio, das pessoas, de todos os tipos e todas as idades, na rua durante toda a madrugada. Tudo bem que não curto muito esses botellones que a galera adora fazer aqui em Madrid (hábito de beber cerveja em garrafa com os amigos sentado em qualquer meio fio e que inclui meninas mega produzidas mas esparramadas no chão, falar alto e deixar a calçada bem emporcalhada), mas já escrevi aqui como amo as noite de verão. Ontem, por exemplo, peguei um ônibus noturno as 2h30 pra encontrar os amigos do master num bar, sem qualquer outra preocupação que não fosse encontrar o tal bar. Já hoje é o dia da Parada Gay em Madrid, que vai acontecer na Gran Vía, aqui perto da minha casa, e se estenderá por Chueca, o bairro gay e modernex da cidade.
Purpurinas à parte, o que também faz a noite de Madrid brilhar é a luz que vem da lua maravilhosa daqui e dos prédios clássicos como o Palácio Real, iluminados durante toda a madrugada. Incomparável, e só de olhar para essa iluminação, a da lua, a dos prédios e a do rosto das pessoas, já faz tudo valer a pena!
Bom, então tá registrado - aqui e nos jornais e telejornais espanhóis, que hoje destacam as praias lotadas na Andalucia e na Galícia, além dos casos de gripe suína, da queda no desemprego e do fechamento de uma central nuclear espanhola - e nas vitrines que anunciam as "rebajas": o verão chegou em Madrid. Por fin!!!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Do bar árabe ao brasileiro em 24 horas. Brigada, meu anjinho

Sabe essas histórias loucas do tipo uma reviravolta em 24 horas, uma pessoa que vira seu melhor amigo em duas horas e ficar até as 6h na rua vagando pela noite? Nunca acontece comigo. A minha prudência e os meus pés fincados no chão não permitem.
Não permitiam, ou melhor, não permitiram entre a noite de sexta e de sábado passados, período em que fui da biblioteca pro bar para trabalhar, fiz uma amizade no meio do caminho, briguei com o dono do bar, saí de lá pra (espero) nunca mais voltar, varei a madrugada madrilenha conversando com o novo amigo, fui a uma procissão na manhã de sábado, fiz uma sessão de fotos (como fotógrafa, claro), fui a uma entrevista e consegui um novo emprego.
Ok, agora explico com a minha tradicional calma e lentidão.
Como já contei antes, estava trabalhando em um bar árabe nos fins de semana. Não era bem a idéia romântica que eu tinha de trabalhar num café europeu, aonde as pessoas pediam um muffin com chocolate quente enquanto liam seus livros de sociologia com a mão o queixo e as pernas cruzadas sobre delicados banquinhos e ao som de uma música leve de fundo. Mas era uma grana, e só por isso já valia.
Valia, eu disse bem. Não foi pelo trabalho cansativo e braçal, pela concentração constante pra não derrubar nenhum copo, pela música horrível que penetrava nos mes sonhos mais profundos, por esfregar o chão e caminhar 15 minutos até o ponto de ônibus depois do expediente. Nada disso me faria sair correndo dali.
Mas os árabes começaram a encher o saco. Além de muito grossos e estúpidos, os dois ficavam no bar o tempo todo e me faziam exigências, cada qual a sua maneira, o tempo todo, do tipo obrigar um casal a se mudar de mesa, dar bronca num grupo de meninos que demorava a se decidir pela bebida e proibir a venda de chás orientais depois da meia-noite, mesmo que a pessoa tivesse ido até o bar unicamente para prová-los.
Embora a minha alma carioca quisesse mandá-los pra puta que os pariu o tempo todo, pratiquei minha paciência e fui levando. Até que um dia...
O dia era sexa-feira 12 de junho, e eu andava em direção ao bar procurando desesperadamente uns chineses que ficam na Puerta del Sol oferecendo massagens em um banquinho, pra aliviar a tensão nas costas. Não achei, então fui caminhando tranquilamente até que, do nada, decidi entrar num café, que tocava Jorge Drexler, um cantor uruguaio que eu adoro. Que coincidência, pensei, pouco antes de o garçom do lugar me perguntar, do nada, se eu era brasileira. Que coincidencia, repeti, agora em voz alta, quando ele me falou que teve a sensação que o próximo cliente a entrar seria brasileiro, pra traduzir um poema em português do Chico Buarque que ele tinha nas mãos.
Depois de traduzir uma parte, disse que se desse tempo voltava lá porque trabalhava ali em frente, apontado qual era o bar. Fiquei pensando naquela coincidencia durante a jornada de trabalho, mais uma vez estressante, até que, quase no final, o tal do garçom me aparece lá, dizendo que me esperaria sair.
Um dos árabes, que já tinha demonstrado umas pontas de ciúmes sempre que eu conversava com qualquer pessoa do sexo masculino - o que estava me deixando seriamente preocuapada - olhou com cara feia e aí pronto, foi o que faltava. Ele ficou puto ao perguntar se o garoto era meu amigo e descobrir que eu o tinha conhecido naquela noite, começou uma discussão, os argentinos que trabalham, e que já tinham me alertado sobre a incompatibilidade do nosso sangue latino com o deles, lá levantaram, enfim, armou-se um circo.
Aí sabe aquelas cenas de filme que congelam e um personagem fica de fora analisando? Foi exatamente assim que me senti. Pensei: não, peraí gente, O QUE QUE É ISSO? que lugar é esse??? socorro.
Resumindo, já que isso tá virando capítulo de livro, saí de lá naquela sexta pra nunca mais voltar, e quando coloquei o pé pra fora lá estava o tal do garçom me esperando. Se desculpou e disse: acho que te arrumei um problema. Eu olhei e disse: não, acho que você me tirou de um problema.
Depois de ficarmos até as 6h conversando (sim, conversando) na Puerta del Sol sobre as coisas mais loucas como se fossemos amigos desde o Jardim II - o que foi aos poucos me despindo da energia pesada do bar árabe - nos despedimos e eu voltei pra casa, tomei um banho, deitei na cama e pensei: obrigado, meu anjo da guarda, por enviar alguém pra me tirar dos caminhos errados e me colocar nos bons.
Acordei tarde no dia seguinte, 13 de junho, mas a tempo de ir na Igreja de Santo Antonio em homenagem ao dia dele (não, não fui pedir marido). Depois de também agradecer e tirar fotos da comemoração, fui num restaurante brasileiro perto da minha casa onde havia deixado um currículo há tempos e que agora, justo agora, precisavam de um extra.
Saí de lá com um novo trabalho - agora entre brasileiros, pães de queijo, feijoada, aipim, cajuzinho, DVD do Paulinho da Viola - mas, principalmente, muito feliz com a sensação, a mais forte que já senti, da proteção e das mãos que constantemente se estendem a mim.

Bom, pra amenizar, umas fotos da procissão de Santo Antônio:

Mocinhas fantasiadas na procissão


"Meninas" na fila da tradição do alfinete (elas colocam a mão no bolo de alfinete e o número de alfinetes que grudarem na mão, diz-se, é o número de maridos que a moça terá)


Casal na igreja de Santo Antônio

terça-feira, 9 de junho de 2009

Eu, Luisa B., 26, jornalista, garçonete, estudante, dona de casa, assessora de imprensa de ONG, imigrante e candidata a doutoranda

Tá, todo mundo é um pouco de tudo na vida, mas acho que eu nunca tinha sido tanta coisa ao mesmo tempo. Me dei conta disso a caminho da aula numa tarde em que tava me sentindo meio tonta. No mesmo dia, contabilizava uma entrevista de (sub)emprego, outra para um estágio, uma pesquisa na biblioteca para um trabalho do master, uma entrevista (agora como entrevistadora) para uma reportagem e a entrega de uma documentação pra um programa de doutorado.
Por coincidência, ou não, topei nesse mesmo dia com um artigo do New York Times dizendo justamente como fazíamos tanta coisa que não prestávamos atenção verdadeiramente em nada. Pareceu um recado pra mim.
Agora explico um pouco o título: Depois de semanas distribuindo currículos pela cidade, comecei a trabalhar nos fins de semana num bar árabe(sim, eu já quebrei um copo), no maior estilo "mil e uma noites", com mesinhas e banquinhos baixos, luz fraca, música ambiente e muita narguila, aquele fumo árabe. A galera fica lá no maior relax, enquanto eu corro pra lá e pra cá até as 3h30, quando paro pra fazer a faxina final. Depois de uns 15 minutos de caminhada até o ponto de ônibus noturno e de um bom banho pra tirar o cheiro da narguila, eu caio dura na cama lá pras 6h!
Ao mesmo tempo, estamos na reta final das aulas do master, com entrega de trabalhos semanais. A partir de julho, entro na fase "prática", uma espécie de estágio que eu vou cumprir numa ONG de meio ambiente até o fim de julho, quando então finalizo o processo de inscrição pra um doutorado.
Isso tudo pra não falar de uma atividade que tem tomado muito o meu tempo: procurar passagens baratas nas companhias "low cost". Gente, é um vício, cada vez que você entra no site as passagens tão mais baratas. Hoje mesmo eu encontrei três por 1 euro. Sim, disse 1 euro.
Mas mesmo toda essa agenda de "compromissos" não faz frente a essa rotina louca de trabalho que temos no Brasil. Ainda consigo fazer almoço e comê-lo tranquilamente (lembre-se que estou no país da siesta), dar uma corrida de manhã e enrolar bastaaaante na cama. E quando estamos fora do prazo de entrega de trabalhos, ainda dá pra passear por aí e aproveitar as dezenas de opções culturais que rolam pelas ruas de Madrid. Seguem fotos das que eu fui esse domingo:


Estréia de um filme de Bollywood (a Hollywood da India) numa praça de Lavapiés, o bairro tradicional de imigrantes. Reparem na construção ao fundo.


Eu e Bia no Starbucks depois de uma "maratona" pela Photo España, uma mega exposição de fotos em vários museus e centros culturais da cidade.


Dança indiana na rua.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Ai que calor ô ô...


...e não foi (só) porque eu vi o Rafael Nadal de pertíssimo não! O tempo realmente foi camarada e me presenteou com dias de 30 graus essa semana.
Pela primeira vez no ano, eu suei! Tudo bem que fiquei andando pra lá e pra cá nesta semana, para cobrir a visita da comissão do COI aqui em Madri, a mesma que estava no Rio, pra avaliar a candidatura de ambas pros Jogos Olímpicos 2016. A visita terminou hoje, depois de um almoço no Palácio Real com os reis da Espanha e espanhóis ilustres como o Rafa Nadal e um jogador do Real Madrid que nem me importa saber o nome.
Sim, o Rafa é lindo, e não, eu não almocei no Palácio Real, apenas fui cobrir e logo voltei pro hotel onde estava a comissão. Mas me lembrei dos bons tempos com papi e mami e decidi ir almoçar num restaurante que eu já namorava faz tempo uma bela massa.
Depois de sair correndo pra aula e voltar correndo pra bater a matéria, fui encontrar duas amigas em Lavapiés, um bairro tradicionalmente de imigrantes (muitos árabes e africanos), mas que tem uma vida noturna bem ativa. Na volta, a caminho do ponto de ônibus, embarquei num devaneio notívago, observando esse movimento absurdo de gente as 3h, do argentino tocando violão e o casal dançando flamenco na Puerta del Sol aos bandos de universitários com suas sacolinhas na mão.
Um p.s.: gente, eu tenho que falar dessas sacolinhas, é uma mania que eu acho horrível desse povo aqui. Eles compram umas bebidas vagabas nos "chinos" (como se chamam os mercadinhos daqui, dominados pela massa de chineses que vive em Madrid) e saem por aí com a tal bebida em sacolinhas, via de regra carregadas por pessoas que, ao mesmo tempo que estão mega produzidas, maquiadas, penteadas, não fazem a menor cerimônia de sentar no meio da rua e beber no gargalo.
Pode ser uma visão elitista ou quadrada, mas custa sentar num barzinho e pedir um chope?
De qualquer forma, é só uma implicância (talvez um início de saudade...) boba, nada que me tire o sono. O que tem mesmo me tirado o sono são uns cheiros estranhos que às vezes rola pela minha casa (o que fica para um próximo post). Ah, e o Nadal! Ai, ai, que calor...

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A gripe

Coisas de hipocondríaca: essa noite sonhei com um porquinho, e acordei com medo de ter contraído a gripe suína.
Isso porque na segunda-feira, depois de deixar minha irmã no aeroporto, resolvi tentar fazer matéria da tal epidemia daqui de Madrid. Fui até o terminal internacional e achei um vôo chegando do México. Quer dizer, eu e toda a imprensa madrilenha, que se aglomerava em torno dos passageiros. Como estava sem gravador, eu fui pra bem perto dos entrevistados para ouvi-los.
Pois bem, saí de lá feliz e contente com uma materinha na manga quando me dei conta: gente, eu fiquei muito perto desses passageiros! Ainda TOQUEI em um deles!!
Aí meu espírito hipocondríaco baixou com toda a força, e saí correndo pro banheiro pra lavar a mão um milhão de vezes.
Quando cheguei em casa de noite, depois da aula, tomei banho e coloquei toda a minha roupa pra lavar antes mesmo de entrar no quarto. huahua.
Bom, aos primeiros sintomas, eu atravesso a rua e me interno, porque tem um hospital na frente do meu prédio.
Copio aqui a matéria que fiz no dia:
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Para barrar mais casos, Espanha faz mega operação no aeroporto de Barajas
Com luvas e máscaras, policiais cadastram e revistam passageiros de voos do México, e governo pede às companhias para isolar pessoas com sintomas ainda no avião
LUISA BELCHIOR

Primeiro país europeu a confirmar um caso de gripe suína e a colocar em prática um plano de contenção da doença, a Espanha montou uma mega operação no aeroporto de Barajas, em Madrid, uma das principais portas de entrada da Europa. Até a conclusão desta edição o Ministério da Saúde espanhol informava haver 26 pessoas com suspeita de gripe suína dentro do país, além de um caso confirmado.
Em menos de dois dias, o Barajas se transformou em uma espécie de muro de contenção de possíveis casos da doença, com médicos de plantão, distribuição de folhetos para passageiros e de máscaras para todos os funcionários. Quem chega de voos do México é recebido por policiais com luvas e máscaras e submetido a um cadastramento com informações pessoais e de localização na Espanha, segundo relataram passageiros à Folha. Já os passageiros com sintomas da doença são isolados ainda no avião.
O esquema de segurança em Madrid, segundo contaram os viajantes, é mais rigoroso que o que foram submetidos no México. “Lá não tem máscaras, e, na verdade, a preocupação das pessoas é zero. Aqui o pessoal que nos recebeu e pegou nosso passaporte está de luvas e todo equipado. Pediram nosso endereço e nos deram um monte de instruções”, disse o vigilante Ivan Vásquez, 25, morador da região da Galícia que chegou na manhã de ontem do México.
O Ministério da Saúde espanhol alegou que o cadastramento se trata de “informação preventiva com o objetivo de identificar e localizar os passageiros em caso de que seja necessário”.
Ontem, o ministério informou que também pediu às companhias aéreas para que isolem passageiros que apresentem sintomas da doença em voos no território espanhol e
também informem em todos os aviões provindos de zonas com casos notificados da doença da necessidade de tomar medicamentos e consultar um médico.
“No nosso voo as aeromoças disseram que tinham umas pessoas com febre mas que já tinham sido examinadas. Mas estamos tranquilos”, contou o estudante Alejando Ortega, 22, que foi passar férias em Cancun e chegou ontem de volta à Madri.
Apesar das medidas, o clima no aeroporto de Barajas também era de tranquilidade. Na manhã de ontem, uma minoria dos funcionários trabalhava com máscara, segundo constatou a Folha em visita ao terminal 4, que recebe os voos internacionais de longa distância. O uso do aparato, segundo a assessoria de imprensa do aeroporto, é voluntário.
“Eles disseram para usar quem quisesse. Eu tenho um pouco de medo, mas não estou usando porque as aeromoças e o pessoal que trabalha perto dos aviões também não estão usando”, disse o funcionário de um balcão de informações do aeroporto.
Os folhetos sobre a gripe suína são distribuídos em duas versões: para quem viaja a “zonas afetadas pela gripe suína” e para quem chega de alguma delas. No primeiro caso, o ministério recomenda a todos os viajantes “cobrir o nariz e a boca com um pano ao tossir ou espirrar” e colocar o pano dentro de um saco plástico ao jogá-lo fora. Também pede que os passageiros não se desloquem muito se estiverem com sintomas da gripe.
O papel instrui os passageiros que regressam de áreas afetadas a monitorar o estado de saúde nos dez dias posteriores à chegada e, em qualquer suspeita, procurar um médico.
Fora do aeroporto, o governo também enviou protocolos de atuação nos casos de suspeita de gripe suína a todas as unidades públicas de saúde.
Apesar das medidas, a ministra da Saúde espanhola, Trinidad Jiménez, afirmou ontem que não há motivo para pânico.
“Neste momento não temos uma situação de emergência no nosso país, mas estamos trabalhando para nos antecipar, para atuar com prevenção sobre qualquer possível evolução dessa situação”, declarou Jiménez, em entrevista coletiva na qual anunciou o primeiro caso confirmado da doença na Europa.