Aconteceu durante uma suchá, uma espécie de debate entre judeus e palestinos. Lá estavam os dois homens, tão iguais, tão diferentes, disparando argumentos sólidos, discutindo a velha e cansada discussão de sempre. De quem é a terra, de quem é o Deus, de quem é a razão. Eram duas almas perdidas no mundo alheio, cada qual no caminho que lhe convinha, cada qual com sua venda, tateando nada mais que seus próprios mundos já tão pequenos, como é de praxe.
Quem presenciou aquele momento até então diria que é mentira: como pode esses dois homens tão cheios de suas certezas, suas raízes e seus povos, se abraçarem, se renderem um ao outro? Como pode, se havia um muro entre eles?
Mas se abraçaram.
Se abraçaram quando descobriram que ambos tiveram seus filhos mortos em um dos tantos confrontos, que já são meros registros, em vez de histórias. Os dois experimentaram o que dizem ser uma das piores dores do mundo, essa de ter que ver o filho morrer, numa inversão tão ilógica e cruel do rumo que o ser humano foi preparado para seguir.
E ao perceber a mesma dor um no outro, os dois desfizeram-se da venda que os cegava e os definia em caminhos paralelos. E choraram, e se abraçaram. "E se encontraram num sentimento humano", contou o interlocutor.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
terça-feira, 25 de dezembro de 2007
Feliz Natal
Hoje sentei ocasionalmente em frente à árvore de Natal da minha vó, depois do "enterro dos ossos". Como poucas vezes, vi as luzinhas, os enfeites da árvore. Vi as histórias dela. E me deu saudade, de hoje...
Minha vó passou e disse: Luluca, não quer assistir à TV?
Disse: Não, vó, tô assistindo à árvore de Natal.
Minha vó passou e disse: Luluca, não quer assistir à TV?
Disse: Não, vó, tô assistindo à árvore de Natal.
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Como se houvesse amanhã
Amanhã eu ponho o pé no mundo
Sim,
Amanhã eu me jogo, me arrisco
mudo a cama de lugar
Que maravilha será mudar!
Vou mudar
Amanhã vou sair pra dançar
(ao contrário de hoje)
vou ser até um pouco louca
Vou ao teatro, vou ver a cidade
vou beber aquele vinho
e escolher outro prato do cardápio,
enfim
Talvez até faça uma tatuagem
e, quem sabe,
marque um vôo de asa delta
Tá decidido,
Vou mudar! mas amanhã
hoje estou cansada
e dá licença,
Que estou ocupada pensando em amanhã.
Sim,
Amanhã eu me jogo, me arrisco
mudo a cama de lugar
Que maravilha será mudar!
Vou mudar
Amanhã vou sair pra dançar
(ao contrário de hoje)
vou ser até um pouco louca
Vou ao teatro, vou ver a cidade
vou beber aquele vinho
e escolher outro prato do cardápio,
enfim
Talvez até faça uma tatuagem
e, quem sabe,
marque um vôo de asa delta
Tá decidido,
Vou mudar! mas amanhã
hoje estou cansada
e dá licença,
Que estou ocupada pensando em amanhã.
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
Maria e o caminho
Ela se chama Maria, como tantas outras, que, também como ela, caminham com o único objetivo de chegar "lá". Caminham com passos sofridos, olhos no horizonte, vergonha das vezes em que querem parar para descansar.
Maria caminha para chegar, ainda que não tenha a mais vaga idéia dos rumos de sua peregrinação.
- Eu sei que vou chegar lá.
- Lá aonde Maria?
Maria não responde. É que as Marias não percebemos que não há "lá", ou melhor, há sim: mas o "lá" é aqui. É neste caminho que a vida acontece, Maria. É em cada passo que a vida se faz, se cria, toma a forma que esculpimos com nossos pés. Seus passos não te levam a nada, eles tão simplesmente levam a ti mesmo. Cada passo é tão valioso, Maria, não percebe? Não percebe a maravilha que é poder dar um passo, e outro, e outro? E a delícia de dar as mãos com estes aqui do lado.
Do lado?
Maria poucas vezes olha para o lado. Daí ela não perceber os pós de ouro, as margaridas brancas, a água cristalina e a grama reluzente que margeiam seu caminho e a acompanham em uma estrada sem fim. Não percebe as canções, nem quem as canta, quem ri, quem chora.
É que não há tempo, pensa Maria. Se olham para os lados, as Marias acham que vão se perder, e não vão chegar lá, e vão se decepcionar.
Mas as Marias, humanas que são, se cansam. E querem parar para descansar. E descansam, o cansaço vazio, e se sentam sobre a incógnita e o medo de para sempre ficarem ali sentadas, fracas que se acham, ante aquela multidão que caminha sem parar para chegar "lá".
Mas Maria, querida, você, com tua força que você cisma em ignorar, já chegou há muito tempo "lá". Chegou no momento em que nasceu.
Maria caminha para chegar, ainda que não tenha a mais vaga idéia dos rumos de sua peregrinação.
- Eu sei que vou chegar lá.
- Lá aonde Maria?
Maria não responde. É que as Marias não percebemos que não há "lá", ou melhor, há sim: mas o "lá" é aqui. É neste caminho que a vida acontece, Maria. É em cada passo que a vida se faz, se cria, toma a forma que esculpimos com nossos pés. Seus passos não te levam a nada, eles tão simplesmente levam a ti mesmo. Cada passo é tão valioso, Maria, não percebe? Não percebe a maravilha que é poder dar um passo, e outro, e outro? E a delícia de dar as mãos com estes aqui do lado.
Do lado?
Maria poucas vezes olha para o lado. Daí ela não perceber os pós de ouro, as margaridas brancas, a água cristalina e a grama reluzente que margeiam seu caminho e a acompanham em uma estrada sem fim. Não percebe as canções, nem quem as canta, quem ri, quem chora.
É que não há tempo, pensa Maria. Se olham para os lados, as Marias acham que vão se perder, e não vão chegar lá, e vão se decepcionar.
Mas as Marias, humanas que são, se cansam. E querem parar para descansar. E descansam, o cansaço vazio, e se sentam sobre a incógnita e o medo de para sempre ficarem ali sentadas, fracas que se acham, ante aquela multidão que caminha sem parar para chegar "lá".
Mas Maria, querida, você, com tua força que você cisma em ignorar, já chegou há muito tempo "lá". Chegou no momento em que nasceu.
terça-feira, 29 de maio de 2007
Entre "
Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo.
Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito.
Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos.
Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade.
Este olhar é o da alma.
A Alma Imoral, Nilton Bonder.
sábado, 26 de maio de 2007
A caixinha
Daquela pequena caixinha sairam distantes lembranças das mútuas entregas, do romance avassalador e de pequenos carinhos como aquele, o da pequena caixinha que aquelas mãos delicadas confeccionaram, num dia de paixão florescida, num dia que ficou fotografado na eternidade, ou ao menos enquanto durasse aquela caixinha. Eram pequenas fotos, eram colagens românticas, era um mimo que ela, com tanto entusiasmo, entregou àquelas mãos grandes e fortes. Era muito mais do que isso...
Daquela pequena caixinha saiu a resposta que ele procurava há semanas, talvez meses. É isso, disse de si para si, não mais contendo as lágrimas que até então apertavam um nó forte na garganta. É isso que não temos mais, lamentou, disso que sentia tanta falta, talvez por isso o brilho da sua áura, sempre estonteante, estivesse, pouquinho a pouquinho, perdendo a força.
Agora, se debulhava cada vez que lembrava do momento em que, envolto em dúvidas e questionamentos, sua mãe lhe entregara uma caixinha perdida entre tantos outros objetos da casa, e note, podiam ser estes tantos outros, mas foi justo a caixinha que a mãe trouxe nas mãos, dando-lhe ao mesmo tempo - talves sem saber, talvez sabendo, talvez seguindo o sexto sentido maternal - uma direção naquele caminho que lhe era difícil percorrer.
E a falta que sentia de tudo aquilo, a saudade de quando eram eles, de quando a viu, daquela festa em que o tão esperado beijo aconteceu, tudo isso saltou da caixinha como se estivesse preso em uma mola, tensionado pela pressão da tampa. E também pelas preocupações do dia-a-dia, pelo operacional daquela rotina exigida pela criança agora entre os dois. O romance acabou, pensou. Acabou?
Agora lhe restava a dúvida se o casual (?) encontro com a caixinha era um alento para reanimar este lindo romance, que gerou um fruto mais bonito ainda, ou se eram apenas lembranças de uma época que não voltará, memórias para se guardar numa caixinha, afinal. A certeza é que a caixinha, cada vez que aberta, até o fim desta vida, ou no início de outras, o premiará com pingos de uma história, conta-gotas da eternidade, de toda a eternidade que cabe dentro daquela pequena caixinha.
Daquela pequena caixinha saiu a resposta que ele procurava há semanas, talvez meses. É isso, disse de si para si, não mais contendo as lágrimas que até então apertavam um nó forte na garganta. É isso que não temos mais, lamentou, disso que sentia tanta falta, talvez por isso o brilho da sua áura, sempre estonteante, estivesse, pouquinho a pouquinho, perdendo a força.
Agora, se debulhava cada vez que lembrava do momento em que, envolto em dúvidas e questionamentos, sua mãe lhe entregara uma caixinha perdida entre tantos outros objetos da casa, e note, podiam ser estes tantos outros, mas foi justo a caixinha que a mãe trouxe nas mãos, dando-lhe ao mesmo tempo - talves sem saber, talvez sabendo, talvez seguindo o sexto sentido maternal - uma direção naquele caminho que lhe era difícil percorrer.
E a falta que sentia de tudo aquilo, a saudade de quando eram eles, de quando a viu, daquela festa em que o tão esperado beijo aconteceu, tudo isso saltou da caixinha como se estivesse preso em uma mola, tensionado pela pressão da tampa. E também pelas preocupações do dia-a-dia, pelo operacional daquela rotina exigida pela criança agora entre os dois. O romance acabou, pensou. Acabou?
Agora lhe restava a dúvida se o casual (?) encontro com a caixinha era um alento para reanimar este lindo romance, que gerou um fruto mais bonito ainda, ou se eram apenas lembranças de uma época que não voltará, memórias para se guardar numa caixinha, afinal. A certeza é que a caixinha, cada vez que aberta, até o fim desta vida, ou no início de outras, o premiará com pingos de uma história, conta-gotas da eternidade, de toda a eternidade que cabe dentro daquela pequena caixinha.
terça-feira, 15 de maio de 2007
Novo velho mundo
Tenho flagrados pensamentos, em pequena, de que tudo já estava pronto quando cheguei aqui. Prédios, ruas, hospitais, tudo o que via da janela do carro. Nada mais a construir.
E hoje, mesmo depois de ter testemunhado um mundo feito tão antes da minha chegada, nove séculos antes até, são insistentes as imagens de novas construções que, tijolo a tijolo, foram substituindo aqueles pensamentos de criança, esta que agora vê, além das coisas prontas, aquelas que se erguem sem limites. E insólitas, porém, e perdidas, porém, e sem rumo nem por que.
E vão formando um novo pensamento, de que se tem formado por aí um novo velho mundo, este mundo onde as novas coisas feitas sem propósito e mesmo assim com muita pressa se apertam - ou apertam - entre os própositos das velhas e lentas coisas, que, embora em ruínas, ainda mostram seus simbolismos, suas histórias, talvez sangue, talvez glórias, este mundo onde "tudo ainda é construção e já é ruína".
E hoje, mesmo depois de ter testemunhado um mundo feito tão antes da minha chegada, nove séculos antes até, são insistentes as imagens de novas construções que, tijolo a tijolo, foram substituindo aqueles pensamentos de criança, esta que agora vê, além das coisas prontas, aquelas que se erguem sem limites. E insólitas, porém, e perdidas, porém, e sem rumo nem por que.
E vão formando um novo pensamento, de que se tem formado por aí um novo velho mundo, este mundo onde as novas coisas feitas sem propósito e mesmo assim com muita pressa se apertam - ou apertam - entre os própositos das velhas e lentas coisas, que, embora em ruínas, ainda mostram seus simbolismos, suas histórias, talvez sangue, talvez glórias, este mundo onde "tudo ainda é construção e já é ruína".
segunda-feira, 23 de abril de 2007
Viajar é... (3)
...deixar-se em si mesma e aprender a se levar, mas a se levar leve. E solta. Ah, como é bom se soltar (que saudade eu tava de mim).
Lembrar da entrega e da paixão, aquela guardada num baú cujas chaves já me esquecera que guardava com tanto zelo. Também da arte e da besteira, da História e da preguiça.
Respirar fundo, pra caminhar, subir, caminhar, descer.
Ou simplesmente enquanto deito e sinto a vida passar, sem armaduras, sem fugas. Sem pressa pra acabar, mesmo sabendo que terá fim.
Lembrar da entrega e da paixão, aquela guardada num baú cujas chaves já me esquecera que guardava com tanto zelo. Também da arte e da besteira, da História e da preguiça.
Respirar fundo, pra caminhar, subir, caminhar, descer.
Ou simplesmente enquanto deito e sinto a vida passar, sem armaduras, sem fugas. Sem pressa pra acabar, mesmo sabendo que terá fim.
domingo, 22 de abril de 2007
Viajar é... (1)
...um pacotinho de dualismos:
Um delicioso cansaço do corpo
e um excitante descanso da alma;
suspiros alternados de êxtase e calma;
o peso da mochila doendo as costas,
ao mesmo tempo massageadas pela a leveza dos dias,
que vem e vão delicados, sem metas impostas,
súbitos, mas (ufa) sem correrias;
que vem e vão delicados, sem metas impostas,
súbitos, mas (ufa) sem correrias;
contigenciar e gastar;
saudade e vontade de ficar;
Dormir (muito) pouco
mas descansar de verdade;
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Este é meu espaço para textos pessoais, baseados sobretudo no cotidiano, de Madri, onde vivo, do Rio, de onde sou, e de outros lugares por onde passo. Às vezes, porém, deixo o que está no lado de fora e escrevo sobre o que está no de dentro. Luisa
Eu recomendo
Luisa, Rio de Janeiro - Madrid
- Luisa Belchior
- Jornalista brasileira que vive em Madri desde janeiro de 2009 para uma especialização em Informação Internacional e Países do Sul e um doutorado em Migrações Internacionais. Formada pela PUC-Rio e com especialização em História do Brasil Pós-30 pela UFF, passou pelos jornais Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil e O Fluminense. Da Espanha, colabora para veículos como a Folha de S. Paulo, a revista Vogue Brasil e a Rádio França Internacional.



