quarta-feira, 18 de junho de 2014

O verde dos seus olhos


Pai,

Quando você abriu os olhos bem devagar depois de alguns dias de sedação, percebi pela primeira vez que o anel exterior dos seus olhos são verdes. Cor de oliva, como disse a minha mãe. Desde que voltei de Madri, tinha um receio ainda incosciente de não ver mais seus olhos abertos. Só que você dedicou parte de sua vida a dissipar meus medos e me mostrar cores novas. E agora, nem mesmo agora, faria diferente. Naquele dia portanto você não só me olhou de novo, piscou e trocou olhares, como ainda me mostrou algo novo: o verde cor de oliva dos seus olhos.

Mas para ver bem as coisas, feche os olhos.

Foi o conselho que você me deu antes de uma viagem e que, como todos os outros, ouço diariamente através de sua voz baixinha que ecoa, e sempre ecoará, na minha mente.

Fecho os olhos então e enxergo claramente a imagem-símbolo de uma vida que foi vitória: te vejo alto, cabelos pretos ao vento, sorriso largo e peito aberto, avançando imponente sobre as primeiras ondas do mar - onde você foi mais pleno neste mundo. Numa mão, a Bel; na outra, eu, que deitada na pranchinha olhava para cima, você, e para frente, o mar, e ali me sentia invencível, naquele momento cuja barreira do tempo e espaço tento quebrar cada vez que fecho os olhos. De mãos dadas com você, não havia, não há, onda que não me arrisque em avançar. E então avançávamos até a arrebentação, de onde você nos empurrava forte diante da onda que se formava. E lá íamos nós onda abaixo até a prancha aterrar na beiradinha, uma sensação que só não era melhor que a de ver a sua reação. Por isso, eu levantava afobada, com areia no cabelo, no nariz e no maiô só para me virar e te buscar, e lá estava você, no fundo do mar, gargalhando de alegria e com as mãos para cima em sinal de vitória. Depois disso nunca mais uma montanha russa, uma ladeira de patins, uma grande viagem ou qualquer outra grande aventura tinha graça sem essa sua gargalhada com as mãos para cima em sinal de vitória por trás, essa sua torcida apaixonada.

Fecho os olhos de novo para abri-lo lentamente ao ouvir você chamar a mim e a Bel, deitadas no banco do carro durante uma viagem para Vitória, para ver o sol, uma bola vermelha e gigante no horizonte, e depois disso para sempre olhar o sol no horizonte é para mim uma das maiores aventuras desta vida. Um efeito indelével de sua incansável missão em ensinar a nós, e a todos em volta a amar a natureza, o simples, a essência. Amar acordar cedo para ver o sol, ir à feira comprar frutas e depois distribuí-las aos amigos, e ver prazer em tomar um bom banho e calçar um sapato confortável, dois hábitos que, como você dizia, as pessoas jamais precisariam usar qualquer tipo de drogas se percebessem a potência de bem-estar que eles carregam. E penso nisso de olhos fechados a cada vez que termino um banho.

E ao fechar os olhos outra vez posso sentir o vento forte da garupa da sua moto, enquanto você me levava para a escola antes das 7h e ainda me deixava abrir os braços enquanto acelerava na pista vazia.

Fecho os olhos. Abro e, através de uma máscara de mergulho, vejo você sentado no fundo do mar analisando o que há em volta para logo explorar corais e tocas de peixe, para de lá me mostrar uma estrela do mar, e eu sorrir e te pedir para continuar. Porque ali eu podia passar, e passava, horas (só interrompidas pelas subidas ao deque da lancha para aliviar a saturação de sal esfregando nos lábios cubinhos de doce de leite, que você comprava na estrada): horas te observando, no embalo da minha respiração no tubo, passenado pelo fundo do mar, movendo os pés de pato com tranquilidade e fôlego.

Tranquilidade e fôlego.

Acredito que foi assim que você encarou um diagnóstico recebido há oito anos. Desde então, gostaria de frisar, pai, você não teve uma sobrevida.

Você teve uma vida.

Fez três viagens para a Europa, onde fizemos subviagens inesquecíveis, e uma aos Estados Unidos para visitar a família cujo elo, perdido pela dureza de migrações no pós-guerra no leste europeu, você foi o primeiro a refazer em uma visita a Miami aos 17 anos. Ganhou um campeonato de tênis, dançou, fez obras, pescarias e almoços, incontáveis almoços, nos quais você servia o mar, sua grande paixão, e servia o amor, sua grande missão.

Isso foi vida. Sobrevida é aquilo que temos quando não fazemos o que amamos, quando vivemos sem vontade e arrastando os dias.

Meu pai sempre viveu. Seus hobbies e suas paixões faziam parte do seu cotidiano. Andar de moto, jogar tênis, mergulhar, pescar, comprar peixe e ver o mar. E principalmente, amar e conviver com seus amigos e família, prezar e fazer questão da companhia de cada um deles.

À minha mãe, sua eterna namorada, você foi fiel na sua promessa de que seria para sempre. Você amou, foi companheiro, incentivador, protetor, amante, amigo, exercitou diariamente um amor que, esse sim mãe, mais que para sempre, será eterno, esse sim fará com que você continue de mãos dadas com ele aqui e que o encontre algum dia.

À mim e à Bel, foi muito além do papel de pai. Foi nosso amigo e nosso herói. Como naquelas ondas, você nos deu a mão e nos trouxe até aqui; como daquelas ondas você agora nos dá o empurrão final, e como do fim daquela onda sei que você seguirá gargalhando de alegria e com as mãos para cima em sinal de vitória cada vez que te buscar. Obrigada pai, porque você garantiu a nossa formação e garantiu, sobretudo, que realizássemos nossos sonhos de infância: a Bel queria formar uma família, e você a entregou a essa família, em um dia no qual, entre tantos sorrisos, a sua luz estava particularmente forte. Em seu semblante, diante do olhar dos seus melhores amigos da vida toda e de sua família, plenitude. À mim, que queria ter uma carreira, você fez o possível e o impossível. O possível foi a formação, o apoio, a torcida, o orgulho. O impossível, os detalhes, como este que jamais esquecerei: quando eu era pequena, te dizia que meu sonho era aparecer na TV. Você então pegou uma foto minha 3x4 e colou em uma televisãosinha de brinquedo, do tamanho da foto. Cheguei em casa e acreditei piamente que havia aparecido na TV.

Um otimismo que sempre caminhou com você e que garantiu também que você vivesse tão pleno todos esses anos.

Que me enche de orgulho e paz, que deixa essa tristeza mais leve, embora imensa, porque todos ficamos com a sensação de quero mais. Eu queria, claro, muitos mais anos, queria que você conhecesse aqui seus netos, mas sei que vale mais o amor que o tempo, e sei que você conhecerá seus netos de outra maneira, e talvez até mesmo antes de nós. E sei ainda que você experimentou a beleza de ser avô através dos filhos dos seus sobrinhos, com os quais você também praticou a paternidade antes mesmo de ter a sua primeira filha. Acredito inclusive que parte de sua missão era distribuir amor na forma de tio e tio-avô, e um sinal para mim tão claro disso é, além da gratidão nos olhares desses sobrinhos, duas delas terem te escolhido espontaneamente como padrinho de adoção, não por acaso a sua primeira sobrinha, de 41 anos, e a sua última sobrinha-neta, de apenas quatro.

Todos em busca, e agora comprometidos, com seus ensinamentos: comer bem, praticar esportes, encontrar a felicidade nas coisas simples, viajar, cuidar do lar, compartilhar e dar tanto de si à família e aos amigos, ser digno e fiel a nossos companheiros de vida.

Pai, eu também me comprometo a passar adiante esses ensinamentos, até porque são poucas as coisas na vida que não aprendi com você. Há pouco de mim que não é você, e como seu reflexo no mundo prometo dar continuidade à sua proposta de vida. Prometo fechar os olhos para ver melhor e também engraxar minhas botas e limpar meus óculos, não equilibrar copos, celulares e computadores na esquina da mesa, sentar direito diante da mesa de trabalho, comer espinafre e azeite, desfazer a mala ao chegar da viagem. Prometo seguir viajando e prometo você seguirá sendo meu maior companheiro de viagem, e que agora, em vez de whatsapp, prometo que conversaremos em pensamento e em sonhos.

E eis portanto minha promessa: prometo que, sendo Luisa, seguirei sendo também David.

O David que segue presente nas nossas vidas, na nossa memória, nas nossas casas, na rua Visconde da Graça, no clube Piraquê, na ARI, no mar.

O David Moskovics brasileiro, judeu, carioca. Filho de Freida, romena, e Carlos, húngaro.

O David engenheiro civil, 1º tenente, marido, pai, irmão, tio, padrinho, cunhado, primo, genro.

O David vascaíno, piadista, chef de cozinha, tenista, corredor, campeão de natação e vôlei, motocilista e piloto de barco.

O David navegador, mergulhador, o pescador. Amante do mar, onde, fechando os olhos, te verei para sempre pegando jacaré nas ondas com um dos braços esticados, explorando as tocas de peixes com tranquilidade e fôlego;

onde a cada mergulho te verei gargalhando e com as mãos para cima em sinal de vitória.

4 comentários:

Eliane Carlman disse...

Que texto!!!!!!Diante dele fico feliz de fazer parte dos amigos dessa familia linda.Sou um pouco "David" em sua versão "parceiro" .Vou sempre me lembrar de seu jeito brincalhão e engraçado e da confiança que depositou em mim ao me contar do que se passava com ele em uma conversa no bar da piscina do Piraquê,em uma tarde de encontro tranquilo.Estava triste,mas sereno.Admirável!Grande amigo.Como são sua mãe, você e sua irmã.beijos carinhosos.

André Kano disse...

São 3h40 da madrugada e há pouco terminei minha longa e diária jornada de trabalho. Com os olhos cansados, a nuca e as costas doendo, eu me deparo com suas palavras que me tiram de mim e me fazem visualizar (até de olhos abertos) a narrativa imagética de uma vida ao lado de seu pai que você construiu com palavras e com amor.

Você sabe o quanto seu pai me era querido e o quanto por um bom tempo ele, que adotava a todos, também me adotou como filho. Nas longas conversas depois dos almoços, no tênis que comecei a jogar por causa dele, naquele jeito de falar das coisas que a gente ficava em volta hipnotizado no cair das noites, e ele esticado com a cabeça sobre o colo da sua mãe.

Você termina seu texto dizendo que seu pai vive em você. E foi exatamente isso que eu disse a ele 8 anos atrás, num dia dos pais. Num cartão, escrevi que via o quanto você dele herdou. Ele se emocionou. Os olhos se encheram de lágrimas. E hoje, ao te ler, lamento que não tenha percebido o anel cor de oliva daqueles olhos mareados de ternura.

Unknown disse...

Luisa e Bel, são esses momentos que fazem a vida ser grande e valer a pena, já que a mesma,não pode ser eterna aqui na Terra. David deu a todos, familiares e amigos o melhor do seu ser. Parabéns pelo pai que tiveram! Kitty você teve o privilégio e a alegria de ter sido a mulher e companheira de uma pessoa tão especial, isto é felicidade. Eu melhor do que ninguém, sei o que é ter um companheiro parceiro e amigo, é uma dádiva. beijos Clara.

Colher de Chá Noivas disse...

Amiga, ler este texto foi uma viagem boa. Vc é uma pessoa abençoada, pela sua família, pelo teu pai. E consegui ver cenas lindas e inspiradoras que me fazem querer ter cada vez mais este comprometimento que vc falou: cuidar da família, viajar, comer bem, seu pai te ensinou e vc nos ensina.
Obrigada por compartilhar, obrigada por ser quem vc é, a Luisa, filha do David. Te amo amiga <3